domingo, 1 de maio de 2011

Mercenário

            Matar para viver. Viver sem medo. Escondido nos recantos escuros, evitando a luz à companhia dos ratos da sociedade. Muito se perguntariam por que alguém escolheria uma vida assim. Keth sabia.
            O alto sorasiano apertava um parafuso, alheio aos gritos que cercavam seu escritório, quase nenhum proveniente de tortura. Seu escritório, se é que um apartamento em um prostíbulo pode ser chamado assim, encontrava-se obscurecido pelas persianas negras que bloqueavam a luz, deixando o cômodo no negrume total. A noite do outro lado da janela, também contribuía para a falta de luminosidade.
            O cômodo não era grande. Uma sala quadrada abarrotada de armários, simples, de madeira no chão e paredes amarelo-ocre. O teto, este de uma tonalidade mais clara que as paredes não ostentava lamparina. Somente uma pequena lâmpada de mesa fornecia luz para o aposento.
            Uma mesa de madeira separava Keth de seus clientes. Era naquela mesa também que resolvia os pagamentos e compras que fazia. Já esmagara três crânios naquele mogno. Apenas um humano.
            Os armários que cercavam o ambiente também serviam para dar-lhe um ar profissional, e lembrar as pessoas que aquele era um negócio perigoso com pessoas perigosas. Mas o mais provável é que isso fosse ressaltado pela figura sentada na cadeira, no momento mexendo em uma chave de fenda.
            Fora nessa noite que um vulto adentrou o estabelecimento, os olhos vermelhos carregados. Duas mulheres faziam carícias em um senhor abastado a um canto, entregando-lhe uvas na boca e rindo bobamente de suas piadas sem graça, enquanto outras três entretiam um publico que mais lembravam cães selvagens, do que humanos, urrando pelas mulheres que rebolavam e se arrastavam em varas de metal coladas no chão. A cena de uma atendente copulando com um homem ao canto lembraram-lhe do porque estava ali. Para se vingar. E foi com olhos mortos que prosseguiu.
            Com três sonoras batidas marcou sua entrada. Do outro lado, Keth erguia a cabeça de seu monótono trabalho, enquanto desciam de seu teto camadas de insetos e poeira. A quantidade de animais que se acumulavam ali era diferente do resto do estabelecimento, afinal a circulação e movimentação eram bem menores.
            Um grunhido ressoou da garganta de Keth, seguidas as batidas. O som mais lembrou o urro vindo da garganta de um leão.
            A gigantesca tábua de madeira polida fora aberta por um vulto que contrastava com o corredor carcomido e mal iluminado. O estranho vulto encolheu-se com o som terrivelmente alto que as ferrugens da porta provocaram ao serem forçadas, acabando com a pouca coragem que juntara para estar ali. Manteve-se estático de medo até a porta abrir-se por completo.
            Keth olhou-o fugir do exterior barulhento e pecaminoso do prostíbulo para a sala escura e silenciosa. Para o homem, Keth era a imagem da morte em horas de folga. Com os pés sobre a mesa e a capa negra, o homem só não desaparecia no meio das tralhas por causa da luminária acesa sobre sua mesa. Avançou em meio a tropeços em direção à mesa, a cabeça baixa, os olhos tentando se adaptar a falta de luz no ambiente. A porta fechou-se silenciosa as suas costas. Ele não erguera a mão em sua direção. Keth sequer levantara.
            Ao sentar-se, as fracas luzes que escapavam da fortaleza de persianas encontraram seu rosto. Um rosto cansado, com olheiras carregadas e olhos vermelhos. A boca entreaberta tremia levemente. Os olhos vazios perdiam-se nas sombras do quarto.
            Ele inspirou e fechou a boca. Para abri-la logo em seguida.
            – Quero me livrar do amante de minha mulher.
            Silencio.
            Keth grunhiu, pela segunda vez, a impaciência palpável em sua voz.
            – Só isso? – perguntou Keth. Ele realmente esperava algo mais, matar pessoas por razões tão bobas era desperdício para o maior assassino do mundo.
            O homem encarou-o como se o visse pela primeira vez. As olheiras aprofundaram-se em seu rosto, os olhos morreram e a vida em seu interior apagava. Keth tencionou a mão direita. Conhecia quando os homens estavam em seus estados de fúria profunda, a pontos de explodir. Se isso acontecesse o homem em questão teria que ser morto quanto mais cedo possível. E Keth sabia que não se mata um cliente em potencial.
            – Ta certo, ta certo eu faço – diz o assassino voltando para seu trabalho com a chave de fenda. Sentiu a tensão escoar enquanto apertava alguma coisa por debaixo da manga esquerda. – Quem é o sortudo, digo azarado?
            O homem não tremia mais. Parecia que a vida escoara dele, deixando a casca do que já fora um ser humano. As mãos que se apoiavam no encosto da cadeira embranqueceram e Keth temeu pelo seu móvel. Para depois se surpreender.
            – Meu irmão.
            No andar a cima uma prostituta grita. Na sala, reza o silêncio.


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sábado, 2 de abril de 2011

O Guerreiro Marcial

   Essa é uma de minhas historias preferidas. Me fez querer me tornar praticante das fantasticas artes marciais! Sobre um antigo samurai que desenvolveu uma arte marcial, atráves de seu contato com os senhores dos elementos, os Silfos, as Salamandras, os Gnomos, e as Ondinas.
   Satuma Aroki, um samurai que viveu proximo a aurora dos tempos fora um dos primeiros a iniciar o estudo das artes marciais, como são chamadas, artes. Ele nascera com uma mão feita para as katanas, seu olhar assustava os soldados que enfrentava e sua velocidade e habilidade os dominava. Mas, sua melhor qualidade era sem dúvida sua capacidade para aprender. Ao ver um marinheiro amarrar um nó em seu barco já soube como realiza-lo.
   Estudava seus adversarios sempre com muito cuidado e os derrotava com muita facilidade. Depois de dois anos assim, já era o mais condecorado soldado do mundo, sem se sentir satisfeito. Ao se sentar pensativo sobre as pedras de um canion proximo ao mar, três Ondinas surgiram para ele, revelando sentir pena de tamanha frustração nos olhos do experiente samurai.
   O grande guerreiro então lhes revelou lamentar não poder se tornar melhor, pois não tinha como evoluir tendo superado a todos. Apieda-das, as Ondinas o levaram a sua casa, onde o ensinaram sua arte de guerra. O soldado treinava suas sequencias, que elas chamavam de hyans. Os hyans melhoraram sua condição fisica, e lhe forneceram um aprimoramento em sua técnica, que nenhum humano mortal poderia propor.
   No entanto, com o tempo, Satuma já se tornara mestre das técnicas da água, que visavam o equilibrio e as mudanças subitas do uso do Yin e Yang. Se tornara superior a Necksa, rainha das Ondinas, que o presenteou com uma faixa feita das fibras das algas marinhas, em respeito a sua superioridade. A pedido da rainha, três Ondinas o levaram para a superfície, onde ele deveria aprender com os mestres Gnomos.
   Antes de sair ele disse: “Eu vos saúdo, Ondinas, Que constituís a representação do elemento Água; Conservai a pureza da minha alma, como o o Elemento mais precioso, da minha vida e do meu organismo. Fazei-me pleno de sua criação fecunda, e dai-me sempre intuição de forma nobre e correta. Mestres da Água, eu vos saúdo fraternalmente. "
   De volta a superfície, Satuma se surpreendeu como o mundo a sua volta parecia diferente. O equilíbrio em seu interior estava mais ressaltado, e isso provocava uma mudança no mundo ao seu redor. Inspirando o ar, despediu-se de suas amigas e voltou-se para um frondo-so carvalho a sua frente. Chamou e, do seu interior um Gnomo saiu.
   O Gnomo o olhou de cima a baixo. Sorrindo, guiou-o até uma clareira no bosque, onde seu povo se reunia. Lá, Satuma se curvou para as criaturas a sua volta e contou-lhes sua historia. Gob, rei dos Gnomos, sorriu-lhe e prometeu lhe ensinar sua técnica, seu modo de vida. Com os Gnomos, Satuma descobriu como se aceitar o inevitavel, como se recuperar não importasse a tempestade, e aprendeu o valor do trabalho ardúo. Com movimentos mais rigidos vizando mais as descargas rapidas de energia negativa, aprendeu a transformar-se em uma fonte de calma. O tempo passou e ele superou Gob em um combate, no qual ambos saíram sorridentes. Em recompensa, Gob entregou-lhe uma faixa, feita da casca da Mais Velha Das Arvores.
   Antes de ser guiado para fora da cidade etérea dos Gnomos, Satuma virou-se com gratidão para seus antigos mestres e disse: "Eu vos saúdo, Gnomos, que constituis a representação do Elemento Terra. Vós que constituis a base e fortaleza da Terra, ajudai-me a transformar, a construir todas as estruturas materiais, assim como uma raiz fortifíca uma árvore frondosa Gnomos, possuidores dos segredos ocultos, fazei-me perfeito e nobre, digno do vosso auxílio."
   Guiado por seus amigos, foi ao encontro das poderosas Salamandras, senhores do fogo, que continuariam seus estudos. Os imponentes seres feitos da auma do fogo, só poderiam ser acessados pulando em direção ao fogo do vulcão. Satuma aguardou dois anos, e quando o vulcão rugiu suas chamas ele pulou em meio a elas, sendo bem recebido pelos Salamandras. Ficara em uma caverna, aguardando o começo de seus estudos.
   Durante 30 anos ele treinou em meio a eles, aguardando o vulcão rugir novamente. Aprendeu as tecnicas completamente surpreendentes do fogo, movendo-se ao sabor do vento e rugindo com furia quando devia, tambem sabendo quando desistir. Aprendeu como se resolver todas as situações, e a saber não desistir, mas aguardar o momento certo. Em meio a seus exercicios, explosões de energia Yin e Yang eram comuns.
   Quando estava a sair, Djin, senhor das Salamandras, chamou-lhe, e em meio as lavas explosivas do vulcão, deu-lhe uma faixa flamejante de raios solares. Sorrindo Satuma entoou-lhe um agradecimento: "Eu vos saúdo, Salamandras, que constituem o elemento Fogo, peço que, com vosso trabalho, fornecei a mim poder para resolver tudo, de acordo com a vontade divina, alimentando meu fogo interno, minha chama trina no coração. E assim formar um novo universo. Mestres do Fogo, eu vos saudo." Djin pessoalmente deixou-lhe em terra, para que pudesse aprender com os ultimos mestres. Silfos os mestres do ar.
   Para alcançar os Silfos, Satuma estaria submetido a sua ultima prova: Escalar a mais alta das montanhas da terra. Ele a escalou de mãos nuas e olhar sempre em frente, raspando pedra com suas unhas e sentindo o sopro de seus futuros mestres, os Silfos, Satuma alcançou o templo central do reino de éter dos Silfos, estando frente a frente com Paralda, Senhor do Vento e da Visão. Paraldas soltou uma sonora gargalhada e o levantou com um sopro, dizendo a Satuma tratar aquele lugar como sua casa.
   Satuma passou o resto de seus dias treinando com os Silfos, descobrindo tudo sobre suas energias Yin e Yang, controlando-as e as unindo. Treinava com suas três faixas, e com o passar do tempo Silfos as invejaram. Criaram para Satuma, uma ultima faixa, uma faixa branca, feita dos suspiros de felicidade de Paralda. Satuma a costurou com as outras três faixas, e descobriu-se usando uma faixa negra ao redor da cintura. Quando ia deixar esse mundo, para aprender com O Pai e Criador, Satuma virou-se para seus amigos Silfos e orou:
    " Eu vos saúdo, Silfos, que constituís a representação do ar e dos ventos, portadores das mensagens em toda a terra, eu deposito em vós a minha imensa confiança, pois meus pensamentos, são sempre positivos, voltados para o amor de todas as coisas existentes. Fazei de mim a imagem do explendor da Luz. Fazei deste pensamento meu milagre! Mestres do Ar eu vos saudo fraternalmente."
    E como o vento se foi, como a água se manteve, como a terra fertilizou-se, e como o fogo consumiu-se.
    Pediu para os Silfos ensinarem a seus amigos e familiares sua arte, coisa que fizeram soprando no ouvido de um jovem militar de coração puro. A ele foi entregue a faixa negra pelas Ondinas quando acabasse seu treinamento. Nenhum lutador conseguiu alcançar o equilibrio de Satuma até hoje.
   " Eu vos saúdo, vós humanos, capazes de alcançar a perfeição, e de se distanciar dela"

quinta-feira, 31 de março de 2011

Nomes

   Curioso esse mecanismo gerado pelo homem para identificação. Os Nomes. Vou escreve-los com letras maiusculas por serem importantes no texto.
   Um dia parei, sentado em uma cadeira de plastico na praia vendo tudo aquilo. Uma praia. Agua. Sol. Pessoas. Eu estava a refletir sobre a vida, sem nenhum resultado particularmente interessante. Depois de um tempo me ocorreu que eu não me conhecia. Não sei de onde veio aquilo, nem porque, mas pensei que devia saber mais sobre mim mesmo.
    Comecei a medir minhas atitudes. Ver o que ja tinha feito, e o que provavelmente faria. Me assustei gravemente algumas vezes, outras a surpresa foi boa. Eu cada vez mais me descobria, e me entendia. As novidades me assustavam e eu toda hora mudava o que não gostava. No fim, quando eu me entendi por completo, me conheci. Vi minha essencia, o que eu criara em todo esse complexo processo de evolução humana. As marcas deixadas pela sociedade, pelas minhas escolhas, tudo isso expresso nas milhares de letras dos livros que leio.
   Me diverti com minhas bobagens, me recriminei por meus erros, elogiei meus acertos. Fora um dia interessante no mínimo. Depois de contemplar essa descoberta virei para dentro de mim e me perguntei se eu era o unico que sabia sua essencia. Logo pensei isso achei bobo. Dizer essencia pra lá e pra cá fica chato. Resolvi chamar o nosso eu de Nome. Nosso Nome. Nossa identidade.
   Depois de um tempo notei certas coisas. Eu trabalhava melhor. Eu me conhecia, explorava meus pontos fortes e corrigia as fraquezas. Me relacionei melhor com os outros. Tomei decisões importantes.
   Me surpreendi que meu Nome mudava com o tempo. Ele sofria alterações, se tornando mais imponente, mais respeitavel. E maior!
   Qual não foi minha surpresa quando descobri com um nome que crescia, junto comigo! Depois de pensar um pouco isso era até óbvio. Os Nomes são nossos alter-egos, nosso verdadeiro eu, quando mudamos, os nomes mudam junto.
   Depois de olhar meus amigos com esses novos olhos melhorados junto com meu Nome, notei que os outros tambem tinham nomes! Claro, mais uma vez me dei um chute mentalmente. Era óbvio! Algumas pessoas eu conseguia ver os nomes de cara, só de olhar visualizava seu verdadeiro eu. Eram nomes curtos e grossos, que expressavam em uma palavra todo um sentimento. Nomes abreviados, pequenos, sem tramas complexas. Uma vez quase enlouqueci tentando entender o nome da motorista de uma van!
   E com o passar do tempo isso se tornou uma distração. Descobrir o Nome das coisas. Alguns nomes me assombram, nomes escuros de pessoas ainda mais escuras. Nomes que ecoam as sombras de mentes deturpadas. Nomes tristes, que não sabiam o que procurar. Outros nomes me fascinam, como do jornaleiro que me vende meus Mangás, de uma garota incrivel que conheci, de meu professor de desenho, da motorista da van...
   Tanto fascínio, só esperando que descubremos nossos nomes.
   Qual o seu?