terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Pasomia - Capitulo 1 - Quase Cinco
Por Bia Sampaio
- Vamos entrar no carro, por favor? Eu vim direto do aeroporto para cá, e não agüento mais ser analisada como objeto de museu por essas patricinhas.
Julia deu uma risadinha:
- Elas são minhas amigas e gostam de novidade. Encare o fato, Carolina. Não é todo dia que transformam Courtney Love em Lady Di.
- Concordo. – disse Tom ajeitando os óculos.
Carol revirou os olhos e acenou para as garotas, como uma princesa faria.
- Agora que já cumpri minhas obrigações reais, podemos ir andando? O cocheiro está a nossa espera.
O último dia do ano letivo chegara ao fim. Agora, enquanto a ex-aluna Carolina, procuravam por sua irmã na saída do colégio, todos os recém formandos gritavam de alívio, atirando suas gravatas azuis do uniforme o mais alto que podiam.
Ela bem que queria sentir saudades da escola e dos amigos. Bem que Carol gostaria de sentir medo pelos exames finais que a admitiriam nas melhores universidades do país. Mas ela não sentia nada disso. Talvez porque nunca tenha gostado da escola bilíngüe e tradicional em que estudara. Ou porque seus colegas nunca tenham sido lá grandes amigos.
Claro que também havia o fato ter sido mandada para Mônaco, viver um ano com sua tia milionária, para aprender como uma moça de boa família deveria se comportar antes de tentar admissão nas melhores universidades da Europa.
Com certeza Tia Nenê sorriria de orelha a orelha ao ver sua sobrinha usando aquelas roupas classudas com o cabelo reluzente, ainda mais dourado pelo sol. E pelos reflexos feitos no salão de beleza, sure.
No entanto, ninguém poderia odiar mais a imagem da nova Carolina, do que ela própria.
Apesar de se encaixar na qualidade de “bem nascida”, ela não possuía as características de uma moça de elite. Cansada daquele mundinho de posses, Carol resolveu, aos quinze anos, formar uma banda com alguns garotos de um colégio alternativo qualquer. Passou a tocar em bares boêmios e até mesmo em festas do círculo social ao qual pertencia. Vivia uma vida de rock star, com a parte do glamour inclusa. Entretanto, um glamour diferente. Ao contrário de sua irmã mais nova, Julia, que roubava corações em corridas de cavalos e jantares de caridade, Carol fazia a cena em lugares como festas casuais e bares da Rua Augusta.
Não era de se esperar que sua aparência também passasse longe do padrão de suas colegas. Cabelos bagunçados que viviam fugindo dos cabeleireiros, roupas que, mesmo quando eram de alguma marca famosa, tinham um jeito próprio de Carol. As unhas que nunca estavam pintadas (porque o esmalte estraga quando se toca guitarra) e claro, a tatuagem na lombar e a orelha, que ostentava três furos, além de um piercing.
Ou melhor, ostentavam. Pelo menos a tatuagem era eterna. Todas as pessoas que passavam pela moça bem arrumada encostada na Mercedez preta olhavam. Todas sabiam que a conheciam de algum lugar, mas como uma pessoa tão elegante poderia passar batido?
A dúvida de tais pessoas não durou muito. Logo, a menina mais bonita do colégio saiu correndo pelo portão de ferro, com os cabelos negros ondulados ao vento e as pernas bronzeadas expostas pela minissaia do uniforme.Ninguém menos do que Julia.
A garota encostada na Mercedez provavelmente era sua irmã mais velha desajustada que acabara de voltar da reabilitação social na Europa.
Quanto a Julia, ela nada mais era do que a irmã perfeita de Carol. A garota mais bonita, inteligente e elegante que qualquer elite de qualquer lugar do mundo já vira. Qualquer uma teria raiva só de ser irmã de tamanha perfeição. Mas Carol não tinha. Na verdade, ela sentia pena da caçula. Tão careta, pobrezinha...
Julia pulou em cima da irmã em um abraço turbulento, cheio de saudades. As duas não se viam desde Julho.
- Pequena! Que saudades de você! – suspirou Carol.
- Eu é que digo! Essa cidade é absolutamente insuportável sem você! – a menina se soltou dos braços da irmã e deu uma olhada em seu novo visual. – Pelo menos o seu perfume ainda é o mesmo.
Antes que Carol pudesse concordar com a expressão de Julia e dar um sermão de como sua tia a forçara a se tornar uma réplica mal sucedida de Grace Kelly, um garoto de quatorze anos, alto, mas com o rosto mais infantil que se pode imaginar, interveio.
Seu nome era Tomás. Ele era o caçula dos irmãos Arruda Prado. Inteligente demais, mas ainda não havia chegado ao auge de sua beleza. Seu intelecto era até assustador, de certa forma. Mas Tom, como era chamado, não era exatamente como o clássico Nerd. Havia uma veia esportiva dentro dele. Jogava futebol todas as tardes em algum clube ao qual sua família pertencia. E quando não estava ocupado demais tirando as melhores notas em física ou chutando algumas bolas, estava produzindo seus próprios filmes.
Tomás era um cinéfilo de primeira linha.
- Então você voltou? – disse o garoto abraçando a irmã de uma forma bem menos calorosa do que fizera Julia. Ele era assim, difícil com sentimentos. Não era frieza. Talvez fosse só a típica timidez de um rapaz de quatorze anos.
- Por enquanto. Eu consegui escapar por um tempo, mas a tia Nenê não me deixará livre. Ela sabe que se eu ficar em São Paulo sozinha, nem que seja por três dias, todo o seu plano de me transformar em uma bonequinha de luxo vai por água abaixo.
Os dois irmãos continuavam analisando Carol. Transformar a garota mais desencanada da cidade em uma princesa moderna era simplesmente inconcebível. E, ao que parecia, era mais que isso. A mais velhas dos Arruda Prado estava de pé em cima de um par de saltos franceses segurando com toda delicadeza uma bolsa que possivelmente valia alguns salários da classe média.
Aqueles olhares e aquelas roupas irritavam Carol.
Pasomia - Introdução
Pasomia
“Que criatura fascinante é o ser humano! Capaz de produzir as maiores dores e os maiores prazeres. De possuir virtudes tão significativas quantos seus pecados. Só o homem é capaz de fazer surgir milagres na tragédia. Guerra e paz. Amor e ódio. Bondade e maldade. Inveja e compaixão.
É preciso ter cuidado com os homens. Há sempre um pouco de céu e inferno dentro deles.”
Por Bia Sampaio
“Que criatura fascinante é o ser humano! Capaz de produzir as maiores dores e os maiores prazeres. De possuir virtudes tão significativas quantos seus pecados. Só o homem é capaz de fazer surgir milagres na tragédia. Guerra e paz. Amor e ódio. Bondade e maldade. Inveja e compaixão.
É preciso ter cuidado com os homens. Há sempre um pouco de céu e inferno dentro deles.”
Por Bia Sampaio
domingo, 26 de dezembro de 2010
Lendas Em Busca Do Poder - Impacto Crescente
Por O Trovador
- Chamem a droga de mais guerreiros! – Gritou Hirgle enquanto partia a cabeça de uma besta com a acha e rodava o corpo inutilizando mais duas no seu curto raio de alcance.
- Chamem a droga de mais guerreiros! – Gritou Hirgle enquanto partia a cabeça de uma besta com a acha e rodava o corpo inutilizando mais duas no seu curto raio de alcance.
- Senhor não vai conseguir segurar esses ai tempo suficiente para eles chegarem! – Gritou em resposta Ilfgrou. – Teremos de derrubar essa galeria também!
- Maldição. Só aqui se extrai minério de Arfazio! Droga! – murmurou para si antes de alterar o tom para declarar com irritação aos companheiros. – Vamos anões! Derrubem tudo em cima desses monstros!
Hirgle ouviu murmúrios de irritação saírem das bocas de seus companheiros. Ele mesmo não queria que a única mina de Arfazio em toda Cidade do Fogo fosse extinta. Mas não havia outro jeito.
Foi o ultimo a sair, garantindo que as bombas não fossem os únicos que se encarregassem de matar as bestas. Sentia o maior desprezo contra essas criaturas e não permitiria que invadissem sua cidade. Seu lar e lugar de trabalho, a Cidade do Fogo era mais do que a cidade natal, era lá que se sentiam refugiados do preconceito para com suas origens e contra sua inteligência. Mesmo que não aparentassem não gostavam dos olhares que lançavam em suas direções.
Quando alcançou a porta a trancou com força e raiva, fazendo sinal de positivo para o companheiro.
- Detonem!
Ouviram o estrondo das paredes desabando e o som de muitos corpos sendo soterrados por quilos e mais quilos de pedras. Praguejando baixinho, Hirgle foi verificar o estado do resto do pequeno contingente que havia ido com ele até a galeria.
- Pelos infernos o que é isso? – Perguntou a Ilfgrou.
- Senhor, não temos certeza. Ataques do Armagedon sempre ocorreram, mas não pelas galerias, principalmente uma tão profundo como essa. Não entendo o que pode estar ocorrendo.
Hirgle parou por um instante. Com o olhar perdido analisava a plataforma sobre a qual se encontrava sem realmente vê-la. Estavam em um dos pontos mais profundos da cidade. Logo abaixo havia uma área em escavação. Uma gigantesca extensão de pedra se encontrava com as marcas da ação dos anões. Sobre sua superfície se encontravam instrumentos de escavação soltos por todos os lados. Quando o alarme soou, foi ordenado que todo anão deixasse aquela região até que um grupo de especialistas fosse até lá analisar o problema. E lá estavam. Sem qualquer resposta apenas uma galeria derrubada e um grupo de bestas tentando ultrapassar o local.
A Cidade do Porto poderia não parecer mais era uma das mais organizadas do Grande Continente. Com os setores em perfeita distribuição, havia áreas onde funcionavam a extração de minério, áreas onde se administravam as compras, áreas para carga, áreas residenciais... Tudo conectado por uma perfeita combinação de túneis e passagens escavadas por gerações e mais gerações de anões. Não precisavam de mapas. Era natural se guiar em meio a terra.
- Senhor, invasão no corredor 65419. Mais bestas senhor, precisaremos de mais soldados! – Berrou uma voz pelo cano-arauto*.
Aquilo o acordou de seu estado de rápida reflexão. Balançou a cabeça para desanuviá-la e começou a dar ordens aos companheiros.
Virando-se irritado, Hirgle segurou na acha que carregava nas costas, forjada de minério de Dinitrio, tendo o fio como Aço fermentado em Ilundrio liquido. Proporcionava uma bela arma, com a resistência do Dinitrio, misturado ao fio do Aço. O Ilundrio garantia efeito anti-ferrugem, sem falar que também evita a necessidade de se afiar com tanta freqüência como às armas que eram enviadas a humanos. Sentia segurança e um sentimento de poder com o contato.
- Vamos anões! Temos umas cabeças para cortar!
- Senhor invasões nas galerias 39871 e 39872 e nas forjas 12, 15, 16 e 20. Ainda recebemos noticias de atividades sísmicas nas regiões 4, 9 e 13. Nunca uma força tão grandiosa se aproximou... Senhor o que esta havendo? – ressoou a voz, um pânico mal contido tomando conta de seu ser.
Hirgle imobilisou-se. A sua volta outros anões também o olhavam assustados. Aquele momento de incerteza custou suas vidas.
Um tremor violento tomou conta do andar. Pedras despencaram do teto sem aviso enquanto buracos se abriam das paredes como se insetos gigantescos estivessem vindo em ondas para preencher o lugar. Bestas e Feras saiam como água das paredes e caindo do teto. Restou pouco tempo para apanharem as armas. Antes que a primeira tivesse saído da bainha, flechas acabaram com a pequena distancia existente entre eles e os filhos do Armagedon.
- Senhor? Senh... AAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SENOR INVADIRAM A CABINE DE COMUNICAÇÕES! SENHOR!!!!!!!!!!!!!! AAAAHHHHHHH...
Mais cedo teria sido impossível para Hirgle ter a mínima noção do que poderia estar acontecendo. Estava tendo uma manha calma, sentado em sua cadeira enquanto lia uma carta de Ilfgrou. Enquanto lia a carta puxava grandes tragos de seu cachimbo, uma herança de família. Na carta seu amigo dizia tudo sobre os filhos Terin e Teren e sobre o bebe que esperava. Sua esposa Mirtriade achava que era uma menina, mas ele esperava receber outro menino.
Enquanto lia distraído a carta, ouviu um ruído metálico as suas costas. Virou-se meio surpreso para o cano-fone instalado em seu quarto. Tinha permissão para ter um em casa por ser chefe da policia da cidade. Tinha como obrigação proteger a cidade, mas também o dever de avaliar o trabalho de seus compatriotas anões. Hoje tinha tirado o dia de folga para manter a casa arrumada e a correspondência em dia. Não esperava receber uma chamada.
- Alo? – chamou rudemente. Realmente queria ter tirado o dia de folga.
- Senhor, precisamos de você na galeria 100078 urgentemente! Foram relatados movimento sísmicos suspeitos na área e temos medo que seja mais uma manobra do Armagedon para roubar nossos minérios... O senhor sabe como é.
- Claro Dreito, mas não acha meio improvável que o Armagedon esteja atacando uma das minas mais profundas da cidade?
- Eu sei senhor, mas você sabe como o rei estava ansioso pela descoberta do Arfazio. Ele preverá grandes negócios, eu não o quero em cima de mim quando chegar de viagem.
- Ah... Claro Dreito pode deixar. Só relaxe anão. Pela sua voz já sei que está tenso igual a um elfo quando ouve o menor ruído.
- Hirgle sei que está irritado por sair da sua folga, mas não precisa descontar em mim. Só estou fazendo meu trabalho!
- Ta cara mais tarde a gente conversa. Chame o meu esquadrão, não sei o que é isso então quero alguém de confiança comigo – olhou o pedaço de pergaminho sobre a cadeira e continuou. – Chame Ilfgrou também. Vou querer ele ao meu lado.
Depois fechou o tampo do cano-fone, virou-se para o quarto onde procurou por seus equipamentos. Pegou consigo sua acha e uma pequena espadinha de batalha. Resolveu ir de meia-armadura. Não sabia o que encontraria por lá então seria bom estar preparado para qualquer ocasião em que fosse necessária uma fuga rápida.
Saiu do quarto e se dirigiu para a área de circulação. Encontrou muitos anões durante o trajeto, alguns trazendo espadas e martelos, pedaços de matéria bruta e aço recém temperado. O calor que subia das fornalhas aquecia o ambiente. Era o lar ideal para qualquer anão.
Chegou aos andaimes com um pouco de antecedência do que seus companheiros. Parou por um segundo para refletir sobre a situação. Atividades sísmicas eram comuns, mas não o suficiente para terem que tirar o chefe da guarda de sua folga. Achava que seriam mais uns suportes mal colocados ou algo de má manutenção. Não fazia a mínima idéia do que realmente estava acontecendo.
Sua equipe chegou pouco tempo depois. Chegando em trios e pares até que tivessem cerca de quinze anões em cima do mesmo andaime. Este já tremia sobre tamanho peso.
- Muito bem companheiros vamos descer para confirmar atividades sísmicas diferentes do normal. Galeria 100078! – Depois, virando-se para um anão que passava ordenou – dessa-nos.
Pouco a pouco o calor e o barulho de conversas sumiam enquanto desciam mais e mais em direção a ultima galeria descoberta. Galeria 100078. Com certeza o que encontraram não era nada com o que esperavam.
Bestas e Feras saiam de grandes buracos das paredes. Carregavam consigo caixas gigantescas onde armazenavam as pedras do minério bruto que encontravam. Por um segundo Hirgle ficou mudo de surpresa. Mas realmente só por um segundo. Depois virou-se e gritou:
- ATACAR!
No fundo sabia que o grito tinha sido meramente dramático. Não precisava de tudo isso. Era simplesmente mais um dia de trabalho.
*É uma rede de canos que ecoava um pedido ou aviso urgente para qualquer parte da cidade. Era vital, pois se houvessem acidentes ou desabamentos anão nenhum ficaria muito tempo perdido.
Guerras da Imperfeição - Capitulo 2 - Os Gemêos Denatan
Por O Trovador
Capitulo 2: Os Gêmeos Denatan
– Cara tem certeza que quer fazer isso?
– Desgraçados vão pro inferno, os dois! – tentou ameaçar Estír, sargento do forte dos Heyan-Shaen. Havia um punho de aço amassando-lhe a garganta coisa que dificultava a saída de palavras.
– Ele quer que a gente vá pro inferno Miráo! Olha essa é nova. Já tava de saco cheio de você ficar com os créditos de machão! – Disse um homem no canto da taberna. Era alto e magro, com cabelos cinza-ralos completamente despenteados que se espalhavam para todos os lados de seu rosto. Usava uma roupa normal de camponês, exceto pelas mãos, que vestiam longas manoplas nas mãos, ambas extremamente singulares e letais ao olhar. Ele anotava alguma coisa em um pequeno bloco de papel apoiado nas pernas cruzadas a sua frente com um sorriso de satisfação.
– Ha! Pelo visto te ultrapassei agora mano – Continuou o homem. Abriu um sorriso largo e zombeteiro, prosseguindo. – 780 contra 781. É cara, pagando!
– A qualé vo ter que te pagar 600 contos só por causa desse merdinha? – disse ilustrando a frase dando uma sacudidela no guarda aturdido.
– As regras são essas mano. Ele nos insultou então um ponto pra cada. Você nos mandou pro inferno né? Quero dizer, nós dois? – disse dirigindo-se ao guarda com um olhar de verdadeira duvida, a face coberta com uma verdadeira inocência, beirando o infantil.
– S.. sim... – tentou dizer, o rosto assumindo um tom perigosamente próximo do púrpuro. Naquela altura, só queria ficar vivo.
O sargento não podia acreditar na má sorte. Tinha sido chamado para identificar a razão da demora de seus subalternos naquela área. Eles haviam sido convocados a uma reunião no quarto do sargento para determinarem táticas de batalha e outros assuntos que não necessitavam da presença dos lideres Ken-Shyhan, mas que eram fundamentais para a proteção de determinadas áreas sob o controle humano. Quando sua paciência chegara ao limite, descera para buscá-los, aproveitando a opinião para puni-los por fazerem-no esperar.
Quando chegara ao salão de espera, uma mistura de bar e ante-sala do castelo encontrara seus quatro subordinados inconscientes no chão, algumas cadeiras caídas e dois homens tendo uma discussão acalorada, sobre quem recebera mais insultos, e, o que era mais estranho, ambos se esforçavam para deixar claro que estes tinham recebido o maior numero de ofensas. Ao avistarem o homem parado a porta, com a boca escancarada de espanto não se deterão por mais do que tempo suficiente para avaliar sua posição, antes de continuarem com a acalorada discussão.
Mas Estír não aceitaria uma desfeita desse calibre. Puxou sua maça-estrela pelo cabo e estava pronto para atirá-la contra os inimigos, quando o mais alto deles, um homem de cabelos brancos curtos e espetados pulou por sobre ele atirando-o no chão. Tinha uma pele bronzeada do sol, coisa que o identificou como um soldado das estepes. Os músculos tonificados que saltavam de cada canto de seu corpo davam-no uma aparência selvagem, quase animalesca.
O homem, cujo nome aparentava ser Miráo, manteve-o no chão sem esforço, enquanto continuava a discussão com o irmão. Quando Estír tentou inutiliza-lo com a maça estrela, Miráo a segurou com visível desprezo e simplesmente a entortou nas mãos, arremessando-a logo em seguida.
- Bem cara você ouviu – continuou o homem no canto, alegre como uma criança. – Pagando! – continuou, a mão estendida e um sorriso zombeteiro no rosto.
- Olha o que você fez merdinha! – Disse Miráo, sacudindo-o. – Por sua causa vou perder 600 moedas de prata! Satisfeito?
Mas o homem já desfalecia sobre seus braços, inconsciente.
- São esses os soldados dos Heyan-Shaen? – perguntou para o vento, sacudindo o que restara do homem com o braço. – Vou ter uma conversa com Gaz sobre isso.
- Sabe, talvez o fato de você ter quase interrompido a circulação de ar na cabeça dele com esse aperto gentil tenha influenciado em algo.
Miráo grunhiu uma resposta ininteligível. Soltou o corpo desacordado, encaminhando-se para a mesa onde estava seu irmão. Olhou para o caderno que anotava a pontuação dos dois por alto e soltou um suspiro de insatisfação. Realmente seu irmão estava com 781 pontos. Levou a mão a um dos bolsos do casaco, relutante e tirou o saco de moedas de prata, largando-o na mesa a sua frente.
- Ah bem melhor assim – Disse com satisfação Tescher, arrebanhando o saco para dentro do seu casaco.
Miráo continuou a encará-lo, o aborrecimento claro em sua face.
- O dobro ou nada – disparou.
Tescher o encarou, a incredulidade tomando conta de seu rosto. Logo depois foi substituída por uma expressão de contentamento e felicidade, beirando ao júbilo.
- Se você cuida-se dos negócios do reino já teríamos mais dividas do que demônios. Feito! – disse estendendo a mão, satisfeito com o negócio.
Os dois apertaram as mãos se entreolhando, a diversão visível nos rostos dos dois. Os gêmeos Denatan eram inseparáveis.
Embora em todo o reino se ouvissem historias a seu respeito, poucos eram os privilegiados a ver os lendários bandidos Denatan. Dois guerreiros que fugiram em meio ao último ano de treinamento dos Ken-Dorei, os gêmeos marcaram seu lugar no corredor da história ao conseguirem invadir os aposentos reais de Nereole e levar consigo treze arcas de ouro dos cofres da corte, sem necessitar matar um único guarda.
Não se ouve, desde então, nada a respeito dos dois lendários ladrões. Ficaram à surdina, nas sombras da historia não estando presentes durante a invasão dos demônios nem durante a unificação da humanidade contra o novo inimigo ameaçador.
Agora, ambos se encontravam em um amplo salão a alguns metros dos melhores guerreiros que o reino poderia oferecer, bebendo cerveja e revivendo antigas travessuras e aventuras.
Vendo ambos assim, lado a lado conversando era impossível não reparar na semelhança. Ambos altos, com cabelos cinza desgrenhados e olhos de um negrume total, mãos fortes e músculos salientes saiam das roupas simples de lavradores, artigos provavelmente roubados de pobres fazendeiros desavisados.
E os dois portando armas igualmente ameaçadoras. O menor, de nome Tescher, levava duas manoplas, luvas de metal. Gigantescas, as duas manoplas eram completamente diferentes. A da mão direita era negra, lisa e reluzente. A da esquerda era de prata, áspera ao olhar e ao toque com entalhes em ouro. Das duas saiam pequenas farpas em forma de ganchos, próprias para perfurar a carne de oponentes desavisados. Era um segredo bem mantido por Tescher, mas aquelas luvas levavam em seu interior um sortimento de armas maior que o arsenal de uma fortaleza. Bombas, facas, agulhas, venenos... Todas as armas que poderiam ser usadas em uma luta corpo a corpo. Ele gostava de ativar uma lamina de bronze que saia da manopla direita, enquanto a esquerda lançava o verdadeiro perigo: pequenos dardos envenenados. Poucos percebiam que não brigavam com alguém desarmado até que sofressem pela ação das armas. Alem dessa variedade de armas, levava consigo artigos próprios de ladrões, como chaves especiais, ácidos, corda... Todos os apetrechos necessários para se arrombar uma fortaleza.
O outro irmão, Miráo, levava consigo uma alabarda, uma lança gigantesca, com provavelmente o dobro do seu tamanho. As alabardas eram bastante incomuns em soldados de infantaria, principalmente se esse soldado fosse um ladrão fugitivo da justiça. Mas Miráo a portava com facilidade e sem esforços. As alabardas são lanças com um fio equivalente a um quarto da arma. Esse um quarto era parecido com o formato dos sabres, longo, fino e mortalmente afiado. Em uma luta corpo a corpo era ineficaz. Mas como sempre, os gêmeos eram exceções.
- Mas e então acha que aquele urso velho quer conosco? – Perguntou Miráo, agora com seriedade no rosto, enquanto levava um copo de cerveja até a garganta.
– Não sei mano, não sei mesmo. Isso é o que mais me preocupa – respondeu o irmão, a face tomada de surpresa, como se não tivesse pretendido admitir que não fazia idéia do que o antigo mentor poderia estar tramando.
Miráo imobilizou-se no mesmo instante. O copo de cerveja a meio caminho da boca desceu lentamente, enquanto ele encarava o irmão, a surpresa evidente no rosto.
- Cara... De nós dois você é o que tem cérebro e ta me dizendo que não sabe o que Gazhol pode estar tramando? – perguntou a incredulidade estampando-lhe a cara. Mesmo com palavras despreocupadas, ocultavam-se surpresa, e até um leve receio em sua mente.
Tescher levantou as mãos, em um sinal claro de impotência. Claro que tivera inúmeras idéias sobre o que Gazhol poderia estar fazendo, mas nenhuma que fizesse coerência. Cada teoria era mais louca e impossível do que a ultima. Lembrava-se claramente do dia que recebera a carta do antigo mestre. Aquele dia, afinal, mudaria sua vida.
Era um dia como qualquer outro nas montanhas de Esthor. Planaltos médios em relação à altura, as montanhas de Esthor localizavam-se em uma ilha, a vários quilômetros do litoral do reino de Merther. A ilha era escondida de olhares curiosos devido à posição geográfica, que a escondia atrás das montanhas de Escador. Tescher estava deitado na rede aproveitando a brisa suave da manhã aos galhos das gigantescas árvores Acanoan.
Gigantescas, as árvores Acanoan eram provenientes da ilha de Esthor. Podiam crescer até aproximadamente um quilômetro de altura e dois de largura. Abrigavam em seu interior inúmeras espécies de animais, e outras criaturas bem mais interessantes. Podiam viver durante milênios, inalteradas pelo tempo. Suas folhas, que variavam desde as menores, com aproximadamente apenas alguns milímetros até colossais folhas do tamanho de bois, serviam de cama para os habitantes dessas imensas maravilhas da natureza.
Enquanto dormia, um farfalhar nas folhas alguns metros acima lhe chamou a atenção. Virando-se para cima avistou uma ave branca com o mesmo tamanho das folhas debatendo-se em meio a um galho retorcido que conseguira prende-lo em sua armadilha mortal.
Lentamente, Tescher subiu os galhos com a destreza de um macaco, chegando até o curioso animal em questão de segundos. Analisando-o, reparou em algo que não notara quando estava a alguns metros abaixo. A ave tinha em suas garras uma bolsa de couro, que o guerreiro logo identificou como um porta-pergaminho. Instrumentos de couro impermeável, esses aparelhos eram usados por aventureiros e mensageiros em missões quando carregavam mensagens e mapas.
Analisando a criatura com mais cuidado percebeu também que no porta-pergaminho encontrava-se o símbolo dos Heyan-Shaen, um “H” floreado de prata sobre um fundo negro reluzente. Erguendo as sobrancelhas cortou os galhos que prendiam a ave à sua armadilha. A ave bateu as enormes asas, feliz por recobrar a mobilidade. Tescher achou que o pássaro iria partir em vôo, mas o pássaro simplesmente pousou a alguns metros dali, estendendo a perna onde estava amarrado o porta-pergaminho.
Surpreso, o famoso ladrão retirou delicadamente o apetrecho das pernas do misterioso animal, abrindo-o com um gesto das mãos. O que caiu em seu colo foi um pergaminho, relativamente pequeno. Enquanto lia, cada vez mais absorto o pedaço de papel, suas sobrancelhas se erguiam e sua concentração se focava inteiramente nas palavras caprichosamente escritas a mão a sua frente...
- A bela adormecida pode me explicar o que é isso?
Levantando-se de um salto e chocando a cabeça com algo duro como uma rocha, Tescher cambaleou tentando visualizar quem o havia interrompido. Encontrou seu irmão acariciando o nariz, que Tescher percebeu fora o objeto com o qual se chocara. Miráo chegara de mansinho com a intenção de assustar o irmão, mas acabara recebendo um golpe doloroso no nariz. Fuzilando o irmão com o olhar, fez um gesto interrogativo para o pássaro albino gigantesco a sua frente e para o pedaço de pergaminho nas mãos do irmão.
- Faça suas malas mano. Temos que voltar – o irmão dissera, enrolando o pergaminho e guardando-o dentro do compartimento de couro.
O pássaro os seguiu até uma das reentrâncias da árvore com tamanho suficiente para abrigar uma estalagem. Aqueles cantos existiam em toda a extensão da curiosa árvore. Buracos, cavados por centenas de anos de vermes e animais, outros, vincos naturais da planta, proporcionavam o abrigo ideal para dois famosos ladrões.
Lá, Tescher estendeu o papel sobre a mesa enquanto o irmão lia as sobrancelhas subindo à medida que os olhos varriam o pergaminho amarelado pelo tempo.
Meia hora depois, ambos estavam descendo as gigantescas árvores, guiados pela fenomenal ave. A ave aparecia durante o dia como uma sombra no chão e durante a noite como um fantasma branco-alva.
Haviam seguido-a por vários quilômetros, saindo da proteção de sua ilha e percorrendo diversos campos de batalha. Durante as guerras o pássaro os guiava através de passagens ocultas a ambos os lados dos exércitos, escondendo-os de qualquer perigo eminente. Analisando as atitudes do animal, Tescher duvidava que ele pudesse representar qualquer perigo para ambos os irmãos.
Ao aproximar-se das fronteiras com a capital Anarim, a gigantesca ave fez um movimento de leve com a cabeça em direção aos dois cavando o chão com as garras, de um prata-escuro reluzente. Os dois trocaram olhares intrigados.
O animal continuou repetindo os gestos, ilustrando-os com gestos de cabeça, nos quais ele apontava primeiro para ele mesmo, depois para os a cidade, voltava-se para os irmãos, indicando-lhes o chão que escavava e depois os dois. Interpretando corretamente os movimentos, os gêmeos sentaram-se lentamente, olhando para o pássaro, a duvida evidente no olhar.
Ele fez novo gesto positivo antes de se virar para as luzes da cidade. Abriu suas asas majestosamente e alçou voou, causando um contraste incrível contra o céu do anoitecer e com as luzes da cidade.
Ambos os irmãos se acolheram próximos a uma árvore, recostando-se confortavelmente enquanto armavam um acampamento improvisado. Não conversaram sobre coisas banais, nem comeram o sortimento de carne que trouxeram das Árvores. Simplesmente sentaram-se, confortando-se com o calor do fogo que apagava lentamente enquanto os ventos do oeste sopravam incessantemente sobre os dois filhos das estepes.
Pela manhã haviam sido acordados por uma rajada súbita de vento. Levantando-se de um salto, ambos pegaram em armas olhando intrigados para o local de onde o vento havia surgido. A sua frente encontrava-se um pergaminho, cuidadosamente dobrado, onde estava escrito seu próximo destino.
“Espero pelos dois no salão da ordem, as cinco e meia”
E agora ambos se encontravam lá.
Um rangido na porta chamou Tescher de volta à realidade. Virando-se, viu um rapaz parado na soleira da porta, olhando embasbacado, a cena à sua frente.
- Mas por demônios o que houve aqui?
Guerras da Imperfeção - Capitulo 1 - A Guerreira e A Fera
Por O Trovador
Capitulo 1: A General e A Fera
Capitulo 1: A General e A Fera
“Espero que ela saiba o que esta fazendo” pensou Heret. Olhava a capitã, o rosto mesclado de admiração e duvida. Não gostava daquela idéia e já expressara sua opinião para a general. Mesmo assim era difícil sair vitorioso em uma discussão com Zora.
Em meio à lua cheia a Ken-Shyhan parecia um maravilhoso anjo, um deleite para os olhos, algo que superava o maravilhoso e alcançava um alto patamar no coração dos homens que já viram tanta dor e tanta tristeza como Heret. A Ken-Shyhan, observava imóvel e atenta à curva na passagem, esperando, vigiando, aguardando o momento em que o inimigo se mostraria. Nela se mostravam toda a prudência e a experiência de uma guerreira veterana. Uma sobrevivente.
Enquanto aguardava o momento de combate, mesmo em meio à tensão e a duvida de não se saber se veria o amanha, não pode deixar de admirar a beleza de sua superior. Era uma mulher na flor da idade, com longos cabelos negros que, mesmo cortados no estilo da ordem, davam-na uma aparência selvagem que deslumbrava o olhar. Esse mesmo ar servia para manter as mãos mal intencionadas longe de seu corpo. Os olhos, negros como a noite, hipnotizavam os homens mais fracos e surpreendiam os demônios. Estes, por sua vez, tornavam irresistível para os homens não pretenderem nada com relação a ela. Mesmo não podendo era impossível para qualquer Ken-Dorei evitar admirá-la.
Vestia uma roupa clássica dos Ken-Shyhan. Uma longa túnica branca, feita de arcenio cantunio, um material somente encontrado nos armamentos demoníacos. Pegavam-se os metais encontrados nos instrumentos demoníacos, e, utilizando técnicas secretas dos metalúrgicos da ordem, o tornava extremamente leve e flexível. Esse tecido se ajustava no corpo, impedindo a penetração de flechas e outros projéteis menores. Era incrivelmente útil e confortável, permitindo que se pudesse aquentar uma grande tempestade sem grandes complicações. Sem grandes adornos, era uma armadura, não um vestido. Calçava botas perfeitas para corridas, um peitoril de aço, ombreiras e uma malha de aço que descia até a barriga, para não dificultar os movimentos. Uma máscara de aço cobria as laterais do rosto, protegendo-a de golpes contra a lateral da cabeça.
As vestimentas dos Ken-Dorei eram incrivelmente úteis, pois permitiam que os membros pudessem se mover livremente sem dificuldades. Os metais dos quais as armaduras eram formadas eram temperados com outros metais, adicionando características a estes e os tornado mais flexíveis durante a solda. Esse processo era demorado, exigindo muito dos metalúrgicos.
Heret por sua vez vestia uma roupa de batalha completa. Armadura mais complementar cobria seu corpo permitindo uma defesa mais abrangente. Tinha força física abastada para mover as juntas e queria ver a criança que o aguardava em casa crescer. Amava sua mulher e seu filho, e não morreria em batalham, sem garantir que os entes queridos estivessem seguros. Seu desejo era o de estar com sua amada no derradeiro momento, com seu filho já casado e feliz, com uma boa herança para si. Era por isso que lutava. Para garantir para sua família um futuro feliz e assegurado. Morreria por essa causa com satisfação, mas preferia estar mais tempo com aqueles que amava.
Ele e Zora havia muito tempo trabalhavam bem juntos. A conhecera durante uma de suas campanhas em Estregant, um labirinto de pântanos e árvores gigantescas em que ele e uma força enviada pelo rei lutaram lado a lado com o grupo de soldados Ken-Dorei que existiam no local contra uma força sete vezes maior. O que os salvou naquela situação fora o conhecimento da área que Zora possuía e da capacidade de liderança de seu general, Feril, que conseguira com que a vantagem proporcionada por Zora fosse usada de maneira a equiparar os números. Fora uma vitória apertada, mas com mais de uma oportunidade para que Zora mostrasse a quão valorosa guerreira era.
Ele, Heret, vivenciara os piores massacres da humanidade, vira companheiros serem mortos e outros tantos se acovardarem. Mesmo tendo também visto a incrível general que sua amiga era, não podia deixar de se preocupar com ela. Sabia que era uma guerreira terrível e tempestuosa, mas ninguém era imortal. Isso aprendera da pior maneira possível. Assim como seus colegas da ordem.
Enquanto refletia sobre Zora, viu com o rabo do olho um movimento na curva, onde aguardavam o aparecimento inimigo. Segurou instintivamente o cabo da arma, uma espada dentada, enquanto seus sentidos apurados de batalha mandavam informações incessantemente. Agora que prestava atenção ouvia os sons das patas dos Greihan no chão, fazendo estremecer os arbustos secos e retorcidos sobre os quais escondiam-se. Sentia mais do que ouvia o som de armas chacoalhando dentro de caminhões gigantescos.
E, acima de tudo, revivia aquela mesma sensação que sentia toda vez que os demônios se aproximavam. Uma mistura de medo e desespero, mais primitiva do que racional. Todos os soldados batalhavam contra esse medo, a cada momento de suas vidas, procurando impedir que isso atrapalhasse seu desempenho durante as lutas.
E então eles apareceram. Vindos direto dos pesadelos que povoam as mentes infantis das crianças humanas, os demônios eram a personificação do medo e dos temores viventes na mente mortal. Eram gigantescos, todos com cerca de dois metros de altura, os olhos, órbitas ocas, que refletiam o vermelho do sangue e do fogo do inferno. O corpo era uma grande carapaça de placas negras, metal natural provavelmente proveniente D’o Abismo. Eram maquinas de guerra e morte, sendo os arautos do Ceifeiro. Portavam espadas gigantescas, que lhes proporcionavam uma vantagem contra qualquer ataque de cavalaria, e contra qualquer coragem humana. Organizados e calculistas, os demônios seguiam em posição de escolta, posição que funcionava como uma ponta de flecha, tendo a cabeça afunilando-se e a traseira perpendicular às paredes rochosas da passagem.
Próximos ao centro da caravana, encontravam-se os carros de carga, grandes carroças moldadas com ferro e ossos, onde estavam armas e munições de todos os tipos. Um dos carros em particular era protegido por quatro Greihans, animais extremamente gordos, os Greihans eram cinzentos e fortes, funcionando como montaria para alguns dos demônios mais experientes. Quando incitados por seus cavaleiros, podiam cruzar grandes distancias em pouco tempo. O carro e particular chacoalhava e de dentro podia-se ouvir os urros de frustração de algo gigantesco.
Não fora nenhuma novidade para Heret ver sua general abrir um leve sorriso ao olhar para as forças inimigas. Claro que ela tinha noção do perigo que enfrentava, mas não se importava com isso. Queria deixar claro sua posição na ordem para todos que quisessem contrariá-la. Mas, mais do que tudo isso ela queria provar para si mesma que era uma guerreira. Queria a todo custo se por a prova, se testar.
Foi tirando lentamente e sem o menor ruído a enorme lança de trás das costas. Quando o pensamento ordenava, a lança revelava cordas de metal que saiam do interior do cabo da arma, ligando estes às pontas de prata celestial para que funcionasse como um chicote. As pontas de aço que feriam os demônios varriam-nos com uma dor insuportável.
Quando o comboio parou para a patrulha de frente, um componente de cinco demônios menores e mais preparados saia a uns cem metros a procura de grupos como o de Zora, evitando ataques surpresa. Essas patrulhas ocorriam a cada hora de avanço, percorrendo todo o perímetro do comboio. Era nessa hora que atacariam. E era nessa hora, mais uma vez a general se poria a prova.
Virando o rosto para os demônios, uma chama acendeu dentro do coração de Zora. Uma fúria que ficara no âmago de seu ser a muito tempo. Estava ali. Lutaria. Venceria. Por-se-ia a prova, mais uma vez. Era simplesmente mais um dia de trabalho. Nada mais, nada menos. E então começou.
Os paredões de Afamandur eram extremamente propensos a um ataque direto de uma força eficiente. As montanhas escarpadas e os penhascos que decoravam a volta desta passagem proporcionavam aos melhores soldados vantagem contra um numero superior. Estratégias de combate pouco importavam naquele lugar. O lugar era pequeno e apertado para uma manobra surpresa e efetiva, que pudesse causar qualquer dano significativo.
Ali se vencia o melhor. E o melhor, essa noite, era Zora.
Ela correu em direção a frente do comboio, decapitando as sentinelas que ainda se encontravam paradas de surpresa. As que se recuperaram primeiro puderam aproveitar mais alguns segundos de vida, antes de sofrerem o mesmo destino de seus irmãos. Quando chegou a frente do comboio, porem, sua lança deu uma sacudidela e as pontas de prata penderam para os lados, proporcionando uma espécie de chicote de metal em suas mãos.
Lançou então a ponta em uma área acima do comboio, em um ponto praticamente intransponível de tão íngreme. Então, sem um único gesto, as correntes puxaram Zora para cima, lançando com força e velocidade diretamente no centro da força de transporte, logo acima da área onde se encontravam os arqueiros. Estes não tiveram uma reação rápida o suficiente. Suas flechas nunca chegaram ao arco antes de suas cabeças encontrarem o chão.
“Exibida” pensou Heret, ao ver os movimentos incríveis de sua amiga. Ela deixara claro que preferia fazer isso sozinha.
O choque das ações da general impressionariam e assustariam qualquer um, mas a mesma impressão marcante não se aplicava aos demônios. Eles se recuperavam do susto inicial e entravam em formação para atacar. Zora também devia ter previsto isso pensou Heret. Era uma tática que eles raramente mudavam. Quando em espaço aberto usavam a cavalaria como um murro de ferro contra a parte do exercito a que fora designada a atacar, evitando assim que o primeiro ataque fosse realizado com sucesso. Depois se espalhavam abrindo caminho em meio às linhas inimigas até que estes fossem dizimados. Enquanto isso as linhas de frente chamavam os arqueiros que aproveitavam à situação e disparavam dezenas de chuvas de flechas contra a parte que estava intacta do exercito. Se dispusessem, em meio a essa confusão os Mazel´s, generais das fileiras demoníacas, avançavam pelo ar montados em lagartos alados gigantescos, que sobrevoavam a arena e atacavam outra área do exercito que não sofrera dano com labaredas colossais de chama verde.
Mas quando em espaço pequeno, enfrentando uma força equivalente ou menor de oponentes, se agrupavam lutando como indivíduos contra cada oponente. A força e eficiência dos demônios era a comunicação por vontade do superior. Quando separados cada um pensava a sua maneira usando tudo para derrotar o inimigo. Atacavam com o que estivesse à frente, e, na falta de armas, as presas, garras e dezenas de músculos serviam para impedir o avanço de qualquer oponente. Era com isso que Zora contava. Um ataque desordenado por parte dos monstros usando isso como arma contra a própria força demoníaca.
Inicialmente tudo saiu como planejado por Zora. Os demônios, agindo individualmente e desgovernados atacaram-na todos de uma vez, criando assim uma complicação e tumulto entre o grupo. Eram ruídos de metais contra metais, e aço contra coro, quando cerca de cento e cinqüenta laminas se ergueram. Os Greihan causavam tumulto em meio aos soldados, chegando a esmagar alguns antes de estes chegarem a dez metros de Zora. Esta aproveitou a distração e usou um dos arcos que trouxera consigo para engolfá-los em sua chuva de dor. Mais quinze caíram antes de avançarem mais cinco passos. Quando finalmente perceberam a necessidade de escudos já haviam caído vinte do pelotão original.
A precisão e velocidade de Zora eram impressionantes. Seus braços eram simples borrões, tamanha a velocidade. As flechas eram como respingos de chuva, nos quais só se viam quando em contraste com algumas das montanhas escarpadas dos dois lados da passagem. A chuva só cessava por alguns segundos, tempo suficiente para Zora recarregar a aljava com algumas das flechas dos derrotados arqueiros. Mesmo com escudos em riste, algumas das flechas perfuravam-nos e se alojavam nos braços e barrigas dos demônios. Esta seqüência custou mais vinte soldados. Quando a alcançaram, eram cem, dos cento e cinqüenta que formavam a equipe original.
Mas foi quando os demônios partiram para o ataque frontal em si que as coisas fugiram ao seu controle. Durante o avanço, uma fila se abriu em meio ao mar de demônios permitindo a visão de uma fera, tão medonha e assustadora que faria o mais corajoso dos homens gritar de medo e pavor. As portas do carro-forte estavam abertas e o animal que elas escondiam encontrava-se sobre a luz do luar.
Alcançando facilmente o tamanho de uma carroça, uma fera abissal surgiu em meio à multidão de pele negra. Pelos cinzentos e grossos, como folhas de arbustos brotavam de cada canto do seu corpo. Estes eram um emaranhado sem sentido que se enrolavam e retorciam a cada canto. Garras que pareciam feitas de diamantes prateados saiam de patas gigantescas, com o tamanho de escudos. O corpo, uma soma terrível de inúmeros músculos salientes, se movia lentamente, com graça e imperiosidade em direção a general. As orelhas estavam eriçadas, sendo, porem a esquerda portadora de um ferimento medonho. O animal exalava uma aura de poder e força insuperável.
Quanto mais se aproximava, mais Zora ouvia o som. Um urro, mais antigo e imperioso que animalesco saia da garganta do animal. Mas não era som. Era algo que mexia com sua mente e abalava os seus sentidos. A cada passada estremecia a terra e encurtava o espaço existente entre Zora e si mesma. As garras arranhavam a terra e esmagavam qualquer obstáculo que entrasse em seu caminho. Sangue rubro como vinho pingava de sua face, formando grandes possas do liquido viscoso e gosmento, devido à mistura deste com a saliva da fera. A fome que o monstro devia sentir era imensurável.
Aqueles olhos, amarelos como gigantescas pedras âmbares lhe lembravam outros tempos. Memórias antigas que jaziam esquecidas em sua mente afloravam agora sem convite, desfilando diante dos seus olhos enquanto o animal continuava o avanço de terror. Uma aldeia a beira das montanhas em chamas. Corpos serviam de alimento para os corvos. Sombras negras avançavam por todos os lados. E em uma das casas uma criança não tinha forças para transformar o horror de ver os pais sendo devorados na sua frente em um grito de socorro. Curiosamente a mesma fera que assombrava esses pesadelos seria a que findaria sua vida.
Ela estava paralisada. Os olhos amarelados impediam-na de fugir ou raciocinar. Como um pássaro hipnotizado pelo olhar da cobra, Zora se imobilizara sobre o olhar ancestral e ameaçador da fera sobre seus olhos. A lança pendia aos seus lados. Inútil. Fraca. Impotente.
Enquanto a fera se aproximava, Zora visualizava em sua frente à face da morte. Seus reflexos e concentração jaziam esquecidos, pertencentes à outra era. Agora era simplesmente o pavor. Assumindo de todos os lados. Tomando conta de seu corpo. Condenando-a.
Guerras da Imperfeição - Introdução - Prólogo do Amanhecer
Por O Trovador
Introdução: Prólogo do Amanhecer
Introdução: Prólogo do Amanhecer
São tempos de trevas. Tempos negros. Uma nuvem paira no horizonte impedindo a visão do resultado. O sangue corre como água e a dor no coração do povo semeia a terra. Os corpos que restam alimentam os corvos. Enquanto isso a nuvem continua seu avanço. Lenta. Negra. Eterna. O povo se enche de medo. A esperança é uma lembrança vaga e distante, que parece ter existido em eras remotas do passado. Não chove. Os trovões não iluminam o céu. É simplesmente um negrume. Que cresce e aumenta com a morte.
Os remanescentes, aqueles que não desistiram e que continuam a luta contra as garras do desespero, estão morrendo. Seus soldados, embora poderosos, perdem a fé e se desesperam. A vida, que outrora fora bela e rica, agora apodrecia em meio ao sofrimento. E as trevas continuam seu avanço. Eternas. Imutáveis. Aparentemente indestrutíveis.
Alguns acreditam que o sofrimento esteja chegando ao fim. Que o Senhor estenderá Sua mão e cessará o sofrimento. Talvez seja verdade. Talvez seja uma simples e patética mentira. E talvez seja este argumento o único sopro de esperança presente nos corações da humanidade. As mães choram por seus filhos e seus maridos. Os velhos lamentam, se sentem fracos e impotentes. E os homens desesperam-se. A dor é uma companheira presente na existência da humanidade.
As mãos da morte se estendem vagarosas e lentas sobre o mundo, como que para aumentar o suspense, trazer a tona o desespero. Pois, diante do desespero vem a dor. Diante da dor vem o mal. E diante do mal vem àqueles que procuram, sobre a sombra das trevas, o poder com o qual sonhavam e almejavam, usando de todos os meios para adquiri-lo.
Mas, diante do mal muitos mostram o que tem de melhor. Esses são aqueles que oferecem a proteção aos mais fracos, e que em momentos de fraqueza, lideram a humanidade em direção a luz, fugindo das trevas. Vendo a importância de sua força, esses homens se juntaram com a intenção de proteger aqueles que lhes eram queridos. Eles eram a única chama de esperança que alimentavam os corações do povo.
Esses eram aqueles que guiavam o povo, aqueles que decidiam o destino de milhares durante as guerras, e aqueles que sempre levavam a vontade do próximo à frente da sua própria. Esta era uma das razões para a seletividade e a eficiência do grupo. Lá, se encontravam os melhores e mais ferozes soldados. Um membro era equivalente a vinte demônios. Sob a liderança de um deles dez homens valem por cem. Eles eram a única barreira que impedia uma derrota total perante as trevas.
Seu objetivo era simples. Lutar contra as trevas com todas as forças, em todas as formas. Impedir o avanço das sombras da dor e do desespero a qualquer custo. Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen*, Aqueles que Iluminam.
Os Ken-Dorei**, nome dado aos membros da ordem, eram treinados nas mais diversas artes da luta armada, o que fornecia uma ampla rede de conhecimentos sobre as técnicas utilizadas pelos adversários. Os membros da ordem também aprendiam diversas outras ciências, algo que poderia resultar em vitória se utilizada corretamente. A soma de todos esses conhecimentos dava a eles a característica de cavaleiros invencíveis.
A cada membro era dada uma arma, que seria sua companheira nas mais diversas ocasiões. Essa arma era feita solidificando água benta sobre uma fôrma, feita com pele de demônio. A arma era então moldada e por fim recebia três gotas de sangue de seu cavaleiro. A partir daí, arma e guerreiro eram um só. A arma só poderia ser usada por seu senhor, ao tempo que cresceria fisicamente, junto com seu cavaleiro.
Os membros em si trabalhavam na concretização de missões designadas pelos membros do alto escalão da ordem. Essas missões raramente eram triviais e muitas vezes exigiam as melhores habilidades dos Ken-Dorei. Havia uma multa altíssima para quem atrapalhasse os membros, mas isso raramente acontecia. Todos entendiam a necessidade de deter o avanço das trevas.
A ordem dos Heyan-Shaen era dividida em quatro círculos de aprendizado, nos quais eles dividiam as missões por grau de importância a partir do terceiro circulo. Os aprendizes sempre iniciavam seu treinamento no primeiro circulo, onde lhes era ensinadas as técnicas básicas de combate, táticas de guerra e todo o conteúdo que geralmente só era fornecido aos generais que atuavam fora da ordem. Esses recrutas eram avaliados por Ken-Hin durante todo o treinamento. Era também nesse circulo que se recebiam as Heyan-Kihen***, pois era considerado de suma importância que os membros da ordem apreendessem a trabalhar em conjunto com a arma desde o inicio do treinamento.
No segundo circulo, o circulo do polimento, os aprendizes eram designados aos membros mais antigos pelos mestres da ordem onde aperfeiçoavam o treinamento e aprendiam o que era a guerra na pele. Lá também se intensifica a parceria entre membros da ordem, coisa que não ocorria durante o circulo do aprendizado, onde os jovens tinham somente algumas instalações e não podiam interagira com o resto da ordem. Já no segundo circulo os aprendizes interagem com os Ken-Shyhan durante o processo de troca de missões e outras ocasiões formais. Essa relação era importante, pois fortalecia os laços de respeito e fraternidade entre membros, o que às vezes significava a diferença entre vida e morte. Mas alem de tudo isso intensificava a parceria entre aprendiz e arma, à medida que sobre os dois passavam-se horas de treinamento e corpos de demônios. Nesse circulo também se realizam missões de menor importância, como mensageiro, defensor de alguma vila ou eliminar determinada criatura.
O terceiro circulo, o circulo dos Ken-Hin**** cuida das missões de considerável risco para os padrões dos Heyan-Shaen, liderando os exércitos, combatendo demônios mais poderosos, ou sendo designados como conselheiros de alguma parte do reino. Nesse circulo os Ken-Hin procuram o nível máximo de suas habilidades de combate e de sua afinidade com as Heyan-Kihen dando a elas a forma desejada e esta se ajustando as necessidades do cavalheiro.
No quarto circulo se encontravam os Ken-Shyhan*****. Eles eram os responsáveis pelo treinamento dos aprendizes, pelas designações das missões aos Ken-Hin e pela administração durante as guerras. Suas opiniões eram de alta conta em qualquer conselho e tinham carta branca para realizar qualquer ação militar que pretenderem. Eram também os guerreiros de maior força e valor, tendo estes poucos indivíduos, deixado nos exércitos das trevas, as maiores feridas. As lendas contam que quando os Ken-Shyhan eram vistos sob o nascer do sol ou sob a lua cheia, estes assumiam uma forma tão linda e magnífica que humilhavam os anjos.
No momento os Ken-Shyhan eram extremamente solicitados como generais em todas as partes do reino. Suas maestrias em combate e as qualidades únicas que estes possuíam como generais eram vitais em todas as partes. Porem, por mais valorosos que fossem, o numero de inimigos era formidável. A cada demônio que caía mais cinco surgiam para substituir o irmão derrotado. Mas a característica que os tornava guerreiros imbatíveis não era os quase cem quilos de músculos e ossos duros como aço, não eram as laminas negras nem as feras aladas que os acompanhavam. Era o fato de que a vida ou a morte eram detalhes ridículos. A vitória ou derrota e as perdas que isso causava eram insignificantes. O único objetivo dessas criaturas provenientes dos abismos do inferno era a eliminação da raça humana e todas as belezas existentes no mundo.
Mas mesmo com essa ameaça os Ken-Shyhan não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Seus membros não eram imortais e os danos que causavam as linhas inimigas parecia não afeta-las. Talvez a única exceção a isso fosse o antigo general Lexsen. Mas isso fora em uma época distante, em um passado longínquo.
No presente, o reino estava sobre uma equilibrada balança na luta por seu lar. Esquemas de batalha eram programados, guerreiros corriam para afiar suas armas, ferreiros as preparavam e crianças se despediam dos pais. Os demônios não eram simplesmente fortes, mas sim extremamente astutos. Seus estrategistas criavam sistemas elaborados de combate, o que era uma pedra no sapato de todo general. Ambos os estrategistas, dos dois lados da batalha esforçavam-se ao máximo para proporcionar um desafio para seu oponente.
Os grandes estrategistas, obviamente estavam entre os Ken-Dorei. Eram conhecidos pelas brilhantes táticas de combate e pelo fato de poderem controlar grandes exércitos com se controlassem a uma criança nervosa. E entre os grandes mestres táticos dos Ken-Dorei estava Lorde Gazhol.
Grande e forte, Gazhol era conhecido pela grande batalha de Afamandur, uma área montanhosa que dava a volta pelas Planices do Luar. Gazhol liderara um exército de trezentos homens através de passagens secretas conhecidas pelos Ken-Shyhan, contra uma força dez vezes maior de demônios. Conseguira também realizar este feito mantendo a salvo duzentos e cinqüenta homens.
Fora uma vitória esplendida que resultara em mais duas seguidas. As batalhas em Mercalar e a vitória em Asterdon (duas cidades costeiras) foram um grande alivio para os humanos do oeste. Enquanto esperavam por reforços que nunca chegariam, os demônios que travavam batalhas em Mercalar se viram encurralada por duas forças de humanos, e acabou com suas forças em frangalhos, perdendo entre a bigorna dos defensores e o martelo de Gazhol e seus agentes, que conseguiram vencer os cinco mil demônios sem nenhuma perda. Enquanto isso, em Asterdon, uma cidade na época tomada por demônios à situação pendia para a balança humana. As forças demoníacas estavam aguardando pelos armamentos que seriam trazidos pelas caravanas que atravessariam Afamandur. Em conseqüência disso acabaram sem projeteis, e as muralhas tiveram uma grande perda da força defensiva. Os humanos de Irilen, cidade vizinha a Asterdon aproveitaram a situação, e junto com a força de Gazhol (a qual avia recebido novos soldados e suprimentos) marcharam para a vitória em Asterdon.
Essas duas grandes batalhas serviram para deixar uma equilibrada na balança, e aumentando o respeito já grande que possuía Gazhol a Serpente, como fora chamado após a vitória em Afamandur. Agora os olhos do mundo estavam voltados para o grande general humano. Seria ele aquele que traria a paz novamente para a humanidade? Seria este homem, que aqueceria a confiança e faria jus aos Heyan-Shaen? Estaria o destino de milhões de vidas nas decisões de um único homem?
Enquanto estas dúvidas pairavam pelas mentes de praticamente toda a humanidade, Gazhol admirava Hiradrin, a Cidade do Sol, refletindo sobre o estado militar de sua raça.
O maior general da ordem se encontrava sobre a varanda de seu quarto, único móvel verdadeiramente seu. O voto de pobreza dos Ken-Dorei os impedia de terem mais do que alguns pertences próprios e alguns metros sobre os quais se deitarem. Já Gazhol possuía grande estatura, músculos duros como pedra e cicatrizes percorrendo quase cada centímetro de seu corpo. Possuía barba negra desgrenhada e toscamente aparada, como era estilo na ordem. Não havia tempo para se barbear em meio a batalhas, então para que a barba não atrapalhasse na movimentação, os Ken-Dorei a aparam com a faca de caça mirando-se nas águas de algum poço ou cantil. O cabelo seguia no mesmo estilo, mas era farto e dele despontavam alguns fios brancos, indicando estar na casa dos quarenta. Um perfeito milagre para os padrões de sobrevivência da ordem. Seus olhos também eram negros, mas neles se viam refletidos todas as experiências vivenciadas pelo grande general. Mas o que mais surpreendia neles era a vivacidade, a calma, a simplicidade e a generosidade que irradiavam de seus olhos e percorriam todo seu corpo, como um calmante. Era essa aura de paz que caracterizava um Ken-Shyhan.
Todas essas características denunciavam sua alta posição na ordem, e que não chegara ali resolvendo papelada. Outra indicação disso talvez fosse o escudo pendurado nas costas, em forma de uma gigantesca asa de morcego. Diferente de seus companheiros, sua Heyan-Kihen assumira a forma de um gigantesco escudo entalhado a parecer uma asa de dragão do tamanho de Gazhol.
O equipamento, porem era de extrema utilidade. Gazhol poderia ativar as laminas que mantinha escondida dentro da asa enquanto a segurava, provocando grandes ferimentos e danos consideráveis nos oponentes desavisados.
Seu quarto não era muito diferente de seu dono. Bem organizado, limpo e extremamente simples, Gazhol viva em um típico quarto de soldado, nada que se esperaria de um Ken-Shyhan. Uma simples cama de soldado, embora bem feita, ocupava um canto do quarto, tendo ao seu lado uma mesa de cabeceira relativamente pequena. Do outro canto do quarto, de frente para a cama, um armário alto ocupava um pequeno trecho da parede norte. Á direita do quarto se encontrava uma grande porta de vidro com uma varanda na qual refletia Gazhol. Uma mesa rústica e grande ocupava o centro do cômodo, atulhado de papeis a tal nível, que se impressionava a mesa se manter em pé. Era , no todo, um lugar acolhedor.
Muitos não sabiam, mas por baixo de toda aquela aparência selvagem e terrível de um dos maiores sobreviventes, se escondiam uma mente brilhante e um homem gentil. Gazhol entendia de valores e perdas em guerras, mas nunca era frio ou indiferente para com seus soldados, nem cruel em uma batalha. Alem de compreender de guerra, Gazhol entendia mais ainda da dor da perda. Sabia da tristeza que preenchia os corações de seus homens, quando estes pensavam que não voltariam para seus filhos e esposas, fazendo assim sempre o máximo possível para garantir que estes chegassem em casa em segurança. Era tido como herói e ídolo entre seus soldados, sendo respeitado e amado por todos.
No momento, porem Gazhol não estava muito amável. Andava pelo pequeno espaço que lhe pertencia com impaciência, às vezes parando para rever uma anotação da papelada sobre a mesa, ou simplesmente para olhar a cidade abaixo dos seus olhos. Esperava pela chegada de seus antigos pupilos, mas isso não era uma reunião amigável. Tinha planos que poderiam por tudo a perder, e a presença dos gêmeos era essencial. Por um momento, sua memória vagou para outro tempo, um tempo em que podia andar por todo reino em paz, um tempo em que não via dor nos olhos do mundo, um tempo em que o mundo era mais acolhedor.
Parou, talvez pela milésima vez. Ficou sentado, olhando para o vazio, lembranças antigas pairando por sobre sua cabeça. Virou-se, e com um amplo movimento partiu ao meio as portas do seu armário.
Quando se virou, uma lagrima escorria por seu rosto, riscando a sujeira e a fuligem.
*Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen, Aqueles que Iluminam.
*Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen, Aqueles que Iluminam.
** (Kein significa recado e Dorei significa esperança, traduzindo-se os mensageiros da esperança)
***(Kihin e a palavra usada pra se referir ao eterno, dando então a definição de Kihen sendo a eterna, referindo-se a uniãoendo a eterna, referindo-se a unio eterno, dando entaarta branca para realizar qualquer açantigos pelos mestres da ordem onde a de aprendiz e arma, união que perdura até o momento da morte)
****(Hin é a palavra para a meia esperança, ou em uma tradução mais rústica é a palavra para o “atiçar de algo”, tendo como complemento o Ken, cuja tradução seria “os que aquecem a esperança”)
*****(Shyhan significa o sentimento máximo de segurança, ou em tradução mais rústica, Shyhan significa confiança, tendo como complemento o Ken à tradução seria: aqueles em que se confia)
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