domingo, 1 de maio de 2011

Mercenário

            Matar para viver. Viver sem medo. Escondido nos recantos escuros, evitando a luz à companhia dos ratos da sociedade. Muito se perguntariam por que alguém escolheria uma vida assim. Keth sabia.
            O alto sorasiano apertava um parafuso, alheio aos gritos que cercavam seu escritório, quase nenhum proveniente de tortura. Seu escritório, se é que um apartamento em um prostíbulo pode ser chamado assim, encontrava-se obscurecido pelas persianas negras que bloqueavam a luz, deixando o cômodo no negrume total. A noite do outro lado da janela, também contribuía para a falta de luminosidade.
            O cômodo não era grande. Uma sala quadrada abarrotada de armários, simples, de madeira no chão e paredes amarelo-ocre. O teto, este de uma tonalidade mais clara que as paredes não ostentava lamparina. Somente uma pequena lâmpada de mesa fornecia luz para o aposento.
            Uma mesa de madeira separava Keth de seus clientes. Era naquela mesa também que resolvia os pagamentos e compras que fazia. Já esmagara três crânios naquele mogno. Apenas um humano.
            Os armários que cercavam o ambiente também serviam para dar-lhe um ar profissional, e lembrar as pessoas que aquele era um negócio perigoso com pessoas perigosas. Mas o mais provável é que isso fosse ressaltado pela figura sentada na cadeira, no momento mexendo em uma chave de fenda.
            Fora nessa noite que um vulto adentrou o estabelecimento, os olhos vermelhos carregados. Duas mulheres faziam carícias em um senhor abastado a um canto, entregando-lhe uvas na boca e rindo bobamente de suas piadas sem graça, enquanto outras três entretiam um publico que mais lembravam cães selvagens, do que humanos, urrando pelas mulheres que rebolavam e se arrastavam em varas de metal coladas no chão. A cena de uma atendente copulando com um homem ao canto lembraram-lhe do porque estava ali. Para se vingar. E foi com olhos mortos que prosseguiu.
            Com três sonoras batidas marcou sua entrada. Do outro lado, Keth erguia a cabeça de seu monótono trabalho, enquanto desciam de seu teto camadas de insetos e poeira. A quantidade de animais que se acumulavam ali era diferente do resto do estabelecimento, afinal a circulação e movimentação eram bem menores.
            Um grunhido ressoou da garganta de Keth, seguidas as batidas. O som mais lembrou o urro vindo da garganta de um leão.
            A gigantesca tábua de madeira polida fora aberta por um vulto que contrastava com o corredor carcomido e mal iluminado. O estranho vulto encolheu-se com o som terrivelmente alto que as ferrugens da porta provocaram ao serem forçadas, acabando com a pouca coragem que juntara para estar ali. Manteve-se estático de medo até a porta abrir-se por completo.
            Keth olhou-o fugir do exterior barulhento e pecaminoso do prostíbulo para a sala escura e silenciosa. Para o homem, Keth era a imagem da morte em horas de folga. Com os pés sobre a mesa e a capa negra, o homem só não desaparecia no meio das tralhas por causa da luminária acesa sobre sua mesa. Avançou em meio a tropeços em direção à mesa, a cabeça baixa, os olhos tentando se adaptar a falta de luz no ambiente. A porta fechou-se silenciosa as suas costas. Ele não erguera a mão em sua direção. Keth sequer levantara.
            Ao sentar-se, as fracas luzes que escapavam da fortaleza de persianas encontraram seu rosto. Um rosto cansado, com olheiras carregadas e olhos vermelhos. A boca entreaberta tremia levemente. Os olhos vazios perdiam-se nas sombras do quarto.
            Ele inspirou e fechou a boca. Para abri-la logo em seguida.
            – Quero me livrar do amante de minha mulher.
            Silencio.
            Keth grunhiu, pela segunda vez, a impaciência palpável em sua voz.
            – Só isso? – perguntou Keth. Ele realmente esperava algo mais, matar pessoas por razões tão bobas era desperdício para o maior assassino do mundo.
            O homem encarou-o como se o visse pela primeira vez. As olheiras aprofundaram-se em seu rosto, os olhos morreram e a vida em seu interior apagava. Keth tencionou a mão direita. Conhecia quando os homens estavam em seus estados de fúria profunda, a pontos de explodir. Se isso acontecesse o homem em questão teria que ser morto quanto mais cedo possível. E Keth sabia que não se mata um cliente em potencial.
            – Ta certo, ta certo eu faço – diz o assassino voltando para seu trabalho com a chave de fenda. Sentiu a tensão escoar enquanto apertava alguma coisa por debaixo da manga esquerda. – Quem é o sortudo, digo azarado?
            O homem não tremia mais. Parecia que a vida escoara dele, deixando a casca do que já fora um ser humano. As mãos que se apoiavam no encosto da cadeira embranqueceram e Keth temeu pelo seu móvel. Para depois se surpreender.
            – Meu irmão.
            No andar a cima uma prostituta grita. Na sala, reza o silêncio.


...

sábado, 2 de abril de 2011

O Guerreiro Marcial

   Essa é uma de minhas historias preferidas. Me fez querer me tornar praticante das fantasticas artes marciais! Sobre um antigo samurai que desenvolveu uma arte marcial, atráves de seu contato com os senhores dos elementos, os Silfos, as Salamandras, os Gnomos, e as Ondinas.
   Satuma Aroki, um samurai que viveu proximo a aurora dos tempos fora um dos primeiros a iniciar o estudo das artes marciais, como são chamadas, artes. Ele nascera com uma mão feita para as katanas, seu olhar assustava os soldados que enfrentava e sua velocidade e habilidade os dominava. Mas, sua melhor qualidade era sem dúvida sua capacidade para aprender. Ao ver um marinheiro amarrar um nó em seu barco já soube como realiza-lo.
   Estudava seus adversarios sempre com muito cuidado e os derrotava com muita facilidade. Depois de dois anos assim, já era o mais condecorado soldado do mundo, sem se sentir satisfeito. Ao se sentar pensativo sobre as pedras de um canion proximo ao mar, três Ondinas surgiram para ele, revelando sentir pena de tamanha frustração nos olhos do experiente samurai.
   O grande guerreiro então lhes revelou lamentar não poder se tornar melhor, pois não tinha como evoluir tendo superado a todos. Apieda-das, as Ondinas o levaram a sua casa, onde o ensinaram sua arte de guerra. O soldado treinava suas sequencias, que elas chamavam de hyans. Os hyans melhoraram sua condição fisica, e lhe forneceram um aprimoramento em sua técnica, que nenhum humano mortal poderia propor.
   No entanto, com o tempo, Satuma já se tornara mestre das técnicas da água, que visavam o equilibrio e as mudanças subitas do uso do Yin e Yang. Se tornara superior a Necksa, rainha das Ondinas, que o presenteou com uma faixa feita das fibras das algas marinhas, em respeito a sua superioridade. A pedido da rainha, três Ondinas o levaram para a superfície, onde ele deveria aprender com os mestres Gnomos.
   Antes de sair ele disse: “Eu vos saúdo, Ondinas, Que constituís a representação do elemento Água; Conservai a pureza da minha alma, como o o Elemento mais precioso, da minha vida e do meu organismo. Fazei-me pleno de sua criação fecunda, e dai-me sempre intuição de forma nobre e correta. Mestres da Água, eu vos saúdo fraternalmente. "
   De volta a superfície, Satuma se surpreendeu como o mundo a sua volta parecia diferente. O equilíbrio em seu interior estava mais ressaltado, e isso provocava uma mudança no mundo ao seu redor. Inspirando o ar, despediu-se de suas amigas e voltou-se para um frondo-so carvalho a sua frente. Chamou e, do seu interior um Gnomo saiu.
   O Gnomo o olhou de cima a baixo. Sorrindo, guiou-o até uma clareira no bosque, onde seu povo se reunia. Lá, Satuma se curvou para as criaturas a sua volta e contou-lhes sua historia. Gob, rei dos Gnomos, sorriu-lhe e prometeu lhe ensinar sua técnica, seu modo de vida. Com os Gnomos, Satuma descobriu como se aceitar o inevitavel, como se recuperar não importasse a tempestade, e aprendeu o valor do trabalho ardúo. Com movimentos mais rigidos vizando mais as descargas rapidas de energia negativa, aprendeu a transformar-se em uma fonte de calma. O tempo passou e ele superou Gob em um combate, no qual ambos saíram sorridentes. Em recompensa, Gob entregou-lhe uma faixa, feita da casca da Mais Velha Das Arvores.
   Antes de ser guiado para fora da cidade etérea dos Gnomos, Satuma virou-se com gratidão para seus antigos mestres e disse: "Eu vos saúdo, Gnomos, que constituis a representação do Elemento Terra. Vós que constituis a base e fortaleza da Terra, ajudai-me a transformar, a construir todas as estruturas materiais, assim como uma raiz fortifíca uma árvore frondosa Gnomos, possuidores dos segredos ocultos, fazei-me perfeito e nobre, digno do vosso auxílio."
   Guiado por seus amigos, foi ao encontro das poderosas Salamandras, senhores do fogo, que continuariam seus estudos. Os imponentes seres feitos da auma do fogo, só poderiam ser acessados pulando em direção ao fogo do vulcão. Satuma aguardou dois anos, e quando o vulcão rugiu suas chamas ele pulou em meio a elas, sendo bem recebido pelos Salamandras. Ficara em uma caverna, aguardando o começo de seus estudos.
   Durante 30 anos ele treinou em meio a eles, aguardando o vulcão rugir novamente. Aprendeu as tecnicas completamente surpreendentes do fogo, movendo-se ao sabor do vento e rugindo com furia quando devia, tambem sabendo quando desistir. Aprendeu como se resolver todas as situações, e a saber não desistir, mas aguardar o momento certo. Em meio a seus exercicios, explosões de energia Yin e Yang eram comuns.
   Quando estava a sair, Djin, senhor das Salamandras, chamou-lhe, e em meio as lavas explosivas do vulcão, deu-lhe uma faixa flamejante de raios solares. Sorrindo Satuma entoou-lhe um agradecimento: "Eu vos saúdo, Salamandras, que constituem o elemento Fogo, peço que, com vosso trabalho, fornecei a mim poder para resolver tudo, de acordo com a vontade divina, alimentando meu fogo interno, minha chama trina no coração. E assim formar um novo universo. Mestres do Fogo, eu vos saudo." Djin pessoalmente deixou-lhe em terra, para que pudesse aprender com os ultimos mestres. Silfos os mestres do ar.
   Para alcançar os Silfos, Satuma estaria submetido a sua ultima prova: Escalar a mais alta das montanhas da terra. Ele a escalou de mãos nuas e olhar sempre em frente, raspando pedra com suas unhas e sentindo o sopro de seus futuros mestres, os Silfos, Satuma alcançou o templo central do reino de éter dos Silfos, estando frente a frente com Paralda, Senhor do Vento e da Visão. Paraldas soltou uma sonora gargalhada e o levantou com um sopro, dizendo a Satuma tratar aquele lugar como sua casa.
   Satuma passou o resto de seus dias treinando com os Silfos, descobrindo tudo sobre suas energias Yin e Yang, controlando-as e as unindo. Treinava com suas três faixas, e com o passar do tempo Silfos as invejaram. Criaram para Satuma, uma ultima faixa, uma faixa branca, feita dos suspiros de felicidade de Paralda. Satuma a costurou com as outras três faixas, e descobriu-se usando uma faixa negra ao redor da cintura. Quando ia deixar esse mundo, para aprender com O Pai e Criador, Satuma virou-se para seus amigos Silfos e orou:
    " Eu vos saúdo, Silfos, que constituís a representação do ar e dos ventos, portadores das mensagens em toda a terra, eu deposito em vós a minha imensa confiança, pois meus pensamentos, são sempre positivos, voltados para o amor de todas as coisas existentes. Fazei de mim a imagem do explendor da Luz. Fazei deste pensamento meu milagre! Mestres do Ar eu vos saudo fraternalmente."
    E como o vento se foi, como a água se manteve, como a terra fertilizou-se, e como o fogo consumiu-se.
    Pediu para os Silfos ensinarem a seus amigos e familiares sua arte, coisa que fizeram soprando no ouvido de um jovem militar de coração puro. A ele foi entregue a faixa negra pelas Ondinas quando acabasse seu treinamento. Nenhum lutador conseguiu alcançar o equilibrio de Satuma até hoje.
   " Eu vos saúdo, vós humanos, capazes de alcançar a perfeição, e de se distanciar dela"

quinta-feira, 31 de março de 2011

Nomes

   Curioso esse mecanismo gerado pelo homem para identificação. Os Nomes. Vou escreve-los com letras maiusculas por serem importantes no texto.
   Um dia parei, sentado em uma cadeira de plastico na praia vendo tudo aquilo. Uma praia. Agua. Sol. Pessoas. Eu estava a refletir sobre a vida, sem nenhum resultado particularmente interessante. Depois de um tempo me ocorreu que eu não me conhecia. Não sei de onde veio aquilo, nem porque, mas pensei que devia saber mais sobre mim mesmo.
    Comecei a medir minhas atitudes. Ver o que ja tinha feito, e o que provavelmente faria. Me assustei gravemente algumas vezes, outras a surpresa foi boa. Eu cada vez mais me descobria, e me entendia. As novidades me assustavam e eu toda hora mudava o que não gostava. No fim, quando eu me entendi por completo, me conheci. Vi minha essencia, o que eu criara em todo esse complexo processo de evolução humana. As marcas deixadas pela sociedade, pelas minhas escolhas, tudo isso expresso nas milhares de letras dos livros que leio.
   Me diverti com minhas bobagens, me recriminei por meus erros, elogiei meus acertos. Fora um dia interessante no mínimo. Depois de contemplar essa descoberta virei para dentro de mim e me perguntei se eu era o unico que sabia sua essencia. Logo pensei isso achei bobo. Dizer essencia pra lá e pra cá fica chato. Resolvi chamar o nosso eu de Nome. Nosso Nome. Nossa identidade.
   Depois de um tempo notei certas coisas. Eu trabalhava melhor. Eu me conhecia, explorava meus pontos fortes e corrigia as fraquezas. Me relacionei melhor com os outros. Tomei decisões importantes.
   Me surpreendi que meu Nome mudava com o tempo. Ele sofria alterações, se tornando mais imponente, mais respeitavel. E maior!
   Qual não foi minha surpresa quando descobri com um nome que crescia, junto comigo! Depois de pensar um pouco isso era até óbvio. Os Nomes são nossos alter-egos, nosso verdadeiro eu, quando mudamos, os nomes mudam junto.
   Depois de olhar meus amigos com esses novos olhos melhorados junto com meu Nome, notei que os outros tambem tinham nomes! Claro, mais uma vez me dei um chute mentalmente. Era óbvio! Algumas pessoas eu conseguia ver os nomes de cara, só de olhar visualizava seu verdadeiro eu. Eram nomes curtos e grossos, que expressavam em uma palavra todo um sentimento. Nomes abreviados, pequenos, sem tramas complexas. Uma vez quase enlouqueci tentando entender o nome da motorista de uma van!
   E com o passar do tempo isso se tornou uma distração. Descobrir o Nome das coisas. Alguns nomes me assombram, nomes escuros de pessoas ainda mais escuras. Nomes que ecoam as sombras de mentes deturpadas. Nomes tristes, que não sabiam o que procurar. Outros nomes me fascinam, como do jornaleiro que me vende meus Mangás, de uma garota incrivel que conheci, de meu professor de desenho, da motorista da van...
   Tanto fascínio, só esperando que descubremos nossos nomes.
   Qual o seu?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pasomia - Capitulo 1 - Quase Cinco


              
Por Bia Sampaio
               


                  
                

                    - Vamos entrar no carro, por favor? Eu vim direto do aeroporto para cá, e não agüento mais ser analisada como objeto de museu por essas patricinhas.                
                  Julia deu uma risadinha:
                
- Elas são minhas amigas e gostam de novidade. Encare o fato, Carolina. Não é todo dia que transformam Courtney Love em Lady Di. 
                
- Concordo. – disse Tom ajeitando os óculos.
                
Carol revirou os olhos e acenou para as garotas, como uma princesa faria.
                
- Agora que já cumpri minhas obrigações reais, podemos ir andando? O cocheiro está a nossa espera.

O último dia do ano letivo chegara ao fim. Agora, enquanto a ex-aluna Carolina, procuravam por sua irmã na saída do colégio, todos os recém formandos gritavam de alívio, atirando suas gravatas azuis do uniforme o mais alto que podiam.           
                   Ela bem que queria sentir saudades da escola e dos amigos. Bem que Carol gostaria de sentir medo pelos exames finais que a admitiriam nas melhores universidades do país. Mas ela não sentia nada disso. Talvez porque nunca tenha gostado da escola bilíngüe e tradicional em que estudara. Ou porque seus colegas nunca tenham sido lá grandes amigos. 
           
                   Claro que também havia o fato ter sido mandada para Mônaco, viver um ano com sua tia milionária, para aprender como uma moça de boa família deveria se comportar antes de tentar admissão nas melhores universidades da Europa.
                     
                   Com certeza Tia Nenê sorriria de orelha a orelha ao ver sua sobrinha usando aquelas roupas classudas com o cabelo reluzente, ainda mais dourado pelo sol. E pelos reflexos feitos no salão de beleza, sure.
                   
No entanto, ninguém poderia odiar mais a imagem da nova Carolina, do que ela própria.
                  
Apesar de se encaixar na qualidade de “bem nascida”, ela não possuía as características de uma moça de elite. Cansada daquele mundinho de posses, Carol resolveu, aos quinze anos, formar uma banda com alguns garotos de um colégio alternativo qualquer. Passou a tocar em bares boêmios e até mesmo em festas do círculo social ao qual pertencia. Vivia uma vida de rock star, com a parte do glamour inclusa. Entretanto, um glamour diferente. Ao contrário de sua irmã mais nova, Julia, que roubava corações em corridas de cavalos e jantares de caridade, Carol fazia a cena em lugares como festas casuais e bares da Rua Augusta.
                   Não era de se esperar que sua aparência também passasse longe do padrão de suas colegas. Cabelos bagunçados que viviam fugindo dos cabeleireiros, roupas que, mesmo quando eram de alguma marca famosa, tinham um jeito próprio de Carol. As unhas que nunca estavam pintadas (porque o esmalte estraga quando se toca guitarra) e claro, a tatuagem na lombar e a orelha, que ostentava três furos, além de um piercing.
                  
Ou melhor, ostentavam. Pelo menos a tatuagem era eterna.                   Todas as pessoas que passavam pela moça bem arrumada encostada na Mercedez preta olhavam. Todas sabiam que a conheciam de algum lugar, mas como uma pessoa tão elegante poderia passar batido?
                   
A dúvida de tais pessoas não durou muito. Logo, a menina mais bonita do colégio saiu correndo pelo portão de ferro, com os cabelos negros ondulados ao vento e as pernas bronzeadas expostas pela minissaia do uniforme.Ninguém menos do que Julia. 
                   A garota encostada na Mercedez provavelmente era sua irmã mais velha desajustada que acabara de voltar da reabilitação social na Europa.
                  
Quanto a Julia, ela nada mais era do que a irmã perfeita de Carol. A garota mais bonita, inteligente e elegante que qualquer elite de qualquer lugar do mundo já vira. Qualquer uma teria raiva só de ser irmã de tamanha perfeição. Mas Carol não tinha. Na verdade, ela sentia pena da caçula. Tão careta,  pobrezinha...
                 
Julia pulou em cima da irmã em um abraço turbulento, cheio de saudades. As duas não se viam desde Julho.
                 
- Pequena! Que saudades de você! – suspirou Carol.
                 
- Eu é que digo! Essa cidade é absolutamente insuportável sem você! – a menina se soltou dos braços da irmã e deu uma olhada em seu novo visual. – Pelo menos o seu perfume ainda é o mesmo.
                  
Antes que Carol pudesse concordar com a expressão de Julia e dar um sermão de como sua tia a forçara a se tornar uma réplica mal sucedida de Grace Kelly, um garoto de quatorze anos, alto, mas com o rosto mais infantil que se pode imaginar, interveio.
                 
Seu nome era Tomás. Ele era o caçula dos irmãos Arruda Prado. Inteligente demais, mas ainda não havia chegado ao auge de sua beleza. Seu intelecto era até assustador, de certa forma. Mas Tom, como era chamado, não era exatamente como o clássico Nerd. Havia uma veia esportiva dentro dele. Jogava futebol todas as tardes em algum clube ao qual sua família pertencia. E quando não estava ocupado demais tirando as melhores notas em física ou chutando algumas bolas, estava produzindo seus próprios filmes.           
                  Tomás era um cinéfilo de primeira linha.
                 
- Então você voltou? – disse o garoto abraçando a irmã de uma forma bem menos calorosa do que fizera Julia. Ele era assim, difícil com sentimentos. Não era frieza. Talvez fosse só a típica timidez de um rapaz de quatorze anos.
                 
- Por enquanto. Eu consegui escapar por um tempo, mas a tia Nenê não me deixará livre. Ela sabe que se eu ficar em São Paulo sozinha, nem que seja por três dias, todo o seu plano de me transformar em uma bonequinha de luxo vai por água abaixo.
                 
Os dois irmãos continuavam analisando Carol. Transformar a garota mais desencanada da cidade em uma princesa moderna era simplesmente inconcebível. E, ao que parecia, era mais que isso. A mais velhas dos Arruda Prado estava de pé em cima de um par de saltos franceses segurando com toda delicadeza uma bolsa que possivelmente valia alguns salários da classe média.
                 
Aqueles olhares e aquelas roupas irritavam Carol.

Pasomia - Introdução

Pasomia     
                       
“Que criatura fascinante é o ser humano! Capaz de produzir as maiores dores e os maiores prazeres. De possuir virtudes tão significativas quantos seus pecados. Só o homem é capaz de fazer surgir milagres na tragédia. Guerra e paz. Amor e ódio. Bondade e maldade. Inveja e compaixão.
       
                É preciso ter cuidado com os homens. Há sempre um pouco de céu e inferno dentro deles.”






                                                                               Por Bia Sampaio

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lendas Em Busca Do Poder - Impacto Crescente

Por O Trovador






            - Chamem a droga de mais guerreiros! – Gritou Hirgle enquanto partia a cabeça de uma besta com a acha e rodava o corpo inutilizando mais duas no seu curto raio de alcance.
            - Senhor não vai conseguir segurar esses ai tempo suficiente para eles chegarem! – Gritou em resposta Ilfgrou. – Teremos de derrubar essa galeria também!
            - Maldição. Só aqui se extrai minério de Arfazio! Droga! – murmurou para si antes de alterar o tom para declarar com irritação aos companheiros. – Vamos anões! Derrubem tudo em cima desses monstros!
            Hirgle ouviu murmúrios de irritação saírem das bocas de seus companheiros. Ele mesmo não queria que a única mina de Arfazio em toda Cidade do Fogo fosse extinta. Mas não havia outro jeito.
            Foi o ultimo a sair, garantindo que as bombas não fossem os únicos que se encarregassem de matar as bestas. Sentia o maior desprezo contra essas criaturas e não permitiria que invadissem sua cidade. Seu lar e lugar de trabalho, a Cidade do Fogo era mais do que a cidade natal, era lá que se sentiam refugiados do preconceito para com suas origens e contra sua inteligência. Mesmo que não aparentassem não gostavam dos olhares que lançavam em suas direções.
            Quando alcançou a porta a trancou com força e raiva, fazendo sinal de positivo para o companheiro.
            - Detonem!
            Ouviram o estrondo das paredes desabando e o som de muitos corpos sendo soterrados por quilos e mais quilos de pedras. Praguejando baixinho, Hirgle foi verificar o estado do resto do pequeno contingente que havia ido com ele até a galeria.
            - Pelos infernos o que é isso? – Perguntou a Ilfgrou.
            - Senhor, não temos certeza. Ataques do Armagedon sempre ocorreram, mas não pelas galerias, principalmente uma tão profundo como essa. Não entendo o que pode estar ocorrendo.
            Hirgle parou por um instante. Com o olhar perdido analisava a plataforma sobre a qual se encontrava sem realmente vê-la. Estavam em um dos pontos mais profundos da cidade. Logo abaixo havia uma área em escavação. Uma gigantesca extensão de pedra se encontrava com as marcas da ação dos anões. Sobre sua superfície se encontravam instrumentos de escavação soltos por todos os lados. Quando o alarme soou, foi ordenado que todo anão deixasse aquela região até que um grupo de especialistas fosse até lá analisar o problema. E lá estavam. Sem qualquer resposta apenas uma galeria derrubada e um grupo de bestas tentando ultrapassar o local.
             A Cidade do Porto poderia não parecer mais era uma das mais organizadas do Grande Continente. Com os setores em perfeita distribuição, havia áreas onde funcionavam a extração de minério, áreas onde se administravam as compras, áreas para carga, áreas residenciais... Tudo conectado por uma perfeita combinação de túneis e passagens escavadas por gerações e mais gerações de anões. Não precisavam de mapas. Era natural se guiar em meio a terra.
            - Senhor, invasão no corredor 65419. Mais bestas senhor, precisaremos de mais soldados! – Berrou uma voz pelo cano-arauto*.
            Aquilo o acordou de seu estado de rápida reflexão. Balançou a cabeça para desanuviá-la e começou a dar ordens aos companheiros.
            Virando-se irritado, Hirgle segurou na acha que carregava nas costas, forjada de minério de Dinitrio, tendo o fio como Aço fermentado em Ilundrio liquido. Proporcionava uma bela arma, com a resistência do Dinitrio, misturado ao fio do Aço. O Ilundrio garantia efeito anti-ferrugem, sem falar que também evita a necessidade de se afiar com tanta freqüência como às armas que eram enviadas a humanos. Sentia segurança e um sentimento de poder com o contato.
            - Vamos anões! Temos umas cabeças para cortar!
            - Senhor invasões nas galerias 39871 e 39872 e nas forjas 12, 15, 16 e 20. Ainda recebemos noticias de atividades sísmicas nas regiões 4, 9 e 13. Nunca uma força tão grandiosa se aproximou... Senhor o que esta havendo? – ressoou a voz, um pânico mal contido tomando conta de seu ser.
            Hirgle imobilisou-se. A sua volta outros anões também o olhavam assustados. Aquele momento de incerteza custou suas vidas.
            Um tremor violento tomou conta do andar. Pedras despencaram do teto sem aviso enquanto buracos se abriam das paredes como se insetos gigantescos estivessem vindo em ondas para preencher o lugar. Bestas e Feras saiam como água das paredes e caindo do teto. Restou pouco tempo para apanharem as armas. Antes que a primeira tivesse saído da bainha, flechas acabaram com a pequena distancia existente entre eles e os filhos do Armagedon.
            - Senhor? Senh... AAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SENOR INVADIRAM A CABINE DE COMUNICAÇÕES! SENHOR!!!!!!!!!!!!!! AAAAHHHHHHH...
           



Mais cedo teria sido impossível para Hirgle ter a mínima noção do que poderia estar acontecendo. Estava tendo uma manha calma, sentado em sua cadeira enquanto lia uma carta de Ilfgrou. Enquanto lia a carta puxava grandes tragos de seu cachimbo, uma herança de família. Na carta seu amigo dizia tudo sobre os filhos Terin e Teren e sobre o bebe que esperava. Sua esposa Mirtriade achava que era uma menina, mas ele esperava receber outro menino. 
            Enquanto lia distraído a carta, ouviu um ruído metálico as suas costas. Virou-se meio surpreso para o cano-fone instalado em seu quarto. Tinha permissão para ter um em casa por ser chefe da policia da cidade. Tinha como obrigação proteger a cidade, mas também o dever de avaliar o trabalho de seus compatriotas anões. Hoje tinha tirado o dia de folga para manter a casa arrumada e a correspondência em dia. Não esperava receber uma chamada. 
            - Alo? – chamou rudemente. Realmente queria ter tirado o dia de folga.
            - Senhor, precisamos de você na galeria 100078 urgentemente! Foram relatados movimento sísmicos suspeitos na área e temos medo que seja mais uma manobra do Armagedon para roubar nossos minérios... O senhor sabe como é.
            - Claro Dreito, mas não acha meio improvável que o Armagedon esteja atacando uma das minas mais profundas da cidade?
            - Eu sei senhor, mas você sabe como o rei estava ansioso pela descoberta do Arfazio. Ele preverá grandes negócios, eu não o quero em cima de mim quando chegar de viagem.
            - Ah... Claro Dreito pode deixar. Só relaxe anão. Pela sua voz já sei que está tenso igual a um elfo quando ouve o menor ruído.
            - Hirgle sei que está irritado por sair da sua folga, mas não precisa descontar em mim. Só estou fazendo meu trabalho!
            - Ta cara mais tarde a gente conversa. Chame o meu esquadrão, não sei o que é isso então quero alguém de confiança comigo – olhou o pedaço de pergaminho sobre a cadeira e continuou. – Chame Ilfgrou também. Vou querer ele ao meu lado.
            Depois fechou o tampo do cano-fone, virou-se para o quarto onde procurou por seus equipamentos. Pegou consigo sua acha e uma pequena espadinha de batalha. Resolveu ir de meia-armadura. Não sabia o que encontraria por lá então seria bom estar preparado para qualquer ocasião em que fosse necessária uma fuga rápida.
            Saiu do quarto e se dirigiu para a área de circulação. Encontrou muitos anões durante o trajeto, alguns trazendo espadas e martelos, pedaços de matéria bruta e aço recém temperado. O calor que subia das fornalhas aquecia o ambiente. Era o lar ideal para qualquer anão.
            Chegou aos andaimes com um pouco de antecedência do que seus companheiros. Parou por um segundo para refletir sobre a situação. Atividades sísmicas eram comuns, mas não o suficiente para terem que tirar o chefe da guarda de sua folga. Achava que seriam mais uns suportes mal colocados ou algo de má manutenção. Não fazia a mínima idéia do que realmente estava acontecendo.
            Sua equipe chegou pouco tempo depois. Chegando em trios e pares até que tivessem cerca de quinze anões em cima do mesmo andaime. Este já tremia sobre tamanho peso.
            - Muito bem companheiros vamos descer para confirmar atividades sísmicas diferentes do normal. Galeria 100078! – Depois, virando-se para um anão que passava ordenou – dessa-nos.
            Pouco a pouco o calor e o barulho de conversas sumiam enquanto desciam mais e mais em direção a ultima galeria descoberta. Galeria 100078. Com certeza o que encontraram não era nada com o que esperavam.
            Bestas e Feras saiam de grandes buracos das paredes. Carregavam consigo caixas gigantescas onde armazenavam as pedras do minério bruto que encontravam. Por um segundo Hirgle ficou mudo de surpresa. Mas realmente só por um segundo. Depois virou-se e gritou:
            - ATACAR!
            No fundo sabia que o grito tinha sido meramente dramático. Não precisava de tudo isso. Era simplesmente mais um dia de trabalho.
           





*É uma rede de canos que ecoava um pedido ou aviso urgente para qualquer parte da cidade. Era vital, pois se houvessem acidentes ou desabamentos anão nenhum ficaria muito tempo perdido.

Guerras da Imperfeição - Capitulo 2 - Os Gemêos Denatan


Por O Trovador



Capitulo 2: Os Gêmeos Denatan

            – Cara tem certeza que quer fazer isso?
            – Desgraçados vão pro inferno, os dois! – tentou ameaçar Estír, sargento do forte dos Heyan-Shaen. Havia um punho de aço amassando-lhe a garganta coisa que dificultava a saída de palavras.       
            – Ele quer que a gente vá pro inferno Miráo! Olha essa é nova. Já tava de saco cheio de você ficar com os créditos de machão! – Disse um homem no canto da taberna. Era alto e magro, com cabelos cinza-ralos completamente despenteados que se espalhavam para todos os lados de seu rosto. Usava uma roupa normal de camponês, exceto pelas mãos, que vestiam longas manoplas nas mãos, ambas extremamente singulares e letais ao olhar. Ele anotava alguma coisa em um pequeno bloco de papel apoiado nas pernas cruzadas a sua frente com um sorriso de satisfação.
            – Ha! Pelo visto te ultrapassei agora mano – Continuou o homem. Abriu um sorriso largo e zombeteiro, prosseguindo. – 780 contra 781. É cara, pagando!
            – A qualé vo ter que te pagar 600 contos só por causa desse merdinha? – disse ilustrando a frase dando uma sacudidela no guarda aturdido.
            – As regras são essas mano. Ele nos insultou então um ponto pra cada. Você nos mandou pro inferno né? Quero dizer, nós dois? – disse dirigindo-se ao guarda com um olhar de verdadeira duvida, a face coberta com uma verdadeira inocência, beirando o infantil.
             – S.. sim... – tentou dizer, o rosto assumindo um tom perigosamente próximo do púrpuro. Naquela altura, só queria ficar vivo.
            O sargento não podia acreditar na má sorte. Tinha sido chamado para identificar a razão da demora de seus subalternos naquela área. Eles haviam sido convocados a uma reunião no quarto do sargento para determinarem táticas de batalha e outros assuntos que não necessitavam da presença dos lideres Ken-Shyhan, mas que eram fundamentais para a proteção de determinadas áreas sob o controle humano. Quando sua paciência chegara ao limite, descera para buscá-los, aproveitando a opinião para puni-los por fazerem-no esperar.
            Quando chegara ao salão de espera, uma mistura de bar e ante-sala do castelo encontrara seus quatro subordinados inconscientes no chão, algumas cadeiras caídas e dois homens tendo uma discussão acalorada, sobre quem recebera mais insultos, e, o que era mais estranho, ambos se esforçavam para deixar claro que estes tinham recebido o maior numero de ofensas. Ao avistarem o homem parado a porta, com a boca escancarada de espanto não se deterão por mais do que tempo suficiente para avaliar sua posição, antes de continuarem com a acalorada discussão.
            Mas Estír não aceitaria uma desfeita desse calibre. Puxou sua maça-estrela pelo cabo e estava pronto para atirá-la contra os inimigos, quando o mais alto deles, um homem de cabelos brancos curtos e espetados pulou por sobre ele atirando-o no chão. Tinha uma pele bronzeada do sol, coisa que o identificou como um soldado das estepes. Os músculos tonificados que saltavam de cada canto de seu corpo davam-no uma aparência selvagem, quase animalesca.
            O homem, cujo nome aparentava ser Miráo, manteve-o no chão sem esforço, enquanto continuava a discussão com o irmão. Quando Estír tentou inutiliza-lo com a maça estrela, Miráo a segurou com visível desprezo e simplesmente a entortou nas mãos, arremessando-a logo em seguida.
            - Bem cara você ouviu – continuou o homem no canto, alegre como uma criança. – Pagando! – continuou, a mão estendida e um sorriso zombeteiro no rosto.
            - Olha o que você fez merdinha! – Disse Miráo, sacudindo-o. – Por sua causa vou perder 600 moedas de prata! Satisfeito?
            Mas o homem já desfalecia sobre seus braços, inconsciente.
            - São esses os soldados dos Heyan-Shaen? – perguntou para o vento, sacudindo o que restara do homem com o braço. – Vou ter uma conversa com Gaz sobre isso.
            - Sabe, talvez o fato de você ter quase interrompido a circulação de ar na cabeça dele com esse aperto gentil tenha influenciado em algo.
            Miráo grunhiu uma resposta ininteligível. Soltou o corpo desacordado, encaminhando-se para a mesa onde estava seu irmão. Olhou para o caderno que anotava a pontuação dos dois por alto e soltou um suspiro de insatisfação. Realmente seu irmão estava com 781 pontos. Levou a mão a um dos bolsos do casaco, relutante e tirou o saco de moedas de prata, largando-o na mesa a sua frente.
            - Ah bem melhor assim – Disse com satisfação Tescher, arrebanhando o saco para dentro do seu casaco.
            Miráo continuou a encará-lo, o aborrecimento claro em sua face.
            - O dobro ou nada – disparou.
            Tescher o encarou, a incredulidade tomando conta de seu rosto. Logo depois foi substituída por uma expressão de contentamento e felicidade, beirando ao júbilo.
            - Se você cuida-se dos negócios do reino já teríamos mais dividas do que demônios. Feito! – disse estendendo a mão, satisfeito com o negócio.
            Os dois apertaram as mãos se entreolhando, a diversão visível nos rostos dos dois. Os gêmeos Denatan eram inseparáveis.
            Embora em todo o reino se ouvissem historias a seu respeito, poucos eram os privilegiados a ver os lendários bandidos Denatan. Dois guerreiros que fugiram em meio ao último ano de treinamento dos Ken-Dorei, os gêmeos marcaram seu lugar no corredor da história ao conseguirem invadir os aposentos reais de Nereole e levar consigo treze arcas de ouro dos cofres da corte, sem necessitar matar um único guarda.
            Não se ouve, desde então, nada a respeito dos dois lendários ladrões. Ficaram à surdina, nas sombras da historia não estando presentes durante a invasão dos demônios nem durante a unificação da humanidade contra o novo inimigo ameaçador.
            Agora, ambos se encontravam em um amplo salão a alguns metros dos melhores guerreiros que o reino poderia oferecer, bebendo cerveja e revivendo antigas travessuras e aventuras.
            Vendo ambos assim, lado a lado conversando era impossível não reparar na semelhança. Ambos altos, com cabelos cinza desgrenhados e olhos de um negrume total, mãos fortes e músculos salientes saiam das roupas simples de lavradores, artigos provavelmente roubados de pobres fazendeiros desavisados.
            E os dois portando armas igualmente ameaçadoras. O menor, de nome Tescher, levava duas manoplas, luvas de metal. Gigantescas, as duas manoplas eram completamente diferentes. A da mão direita era negra, lisa e reluzente. A da esquerda era de prata, áspera ao olhar e ao toque com entalhes em ouro. Das duas saiam pequenas farpas em forma de ganchos, próprias para perfurar a carne de oponentes desavisados. Era um segredo bem mantido por Tescher, mas aquelas luvas levavam em seu interior um sortimento de armas maior que o arsenal de uma fortaleza. Bombas, facas, agulhas, venenos... Todas as armas que poderiam ser usadas em uma luta corpo a corpo. Ele gostava de ativar uma lamina de bronze que saia da manopla direita, enquanto a esquerda lançava o verdadeiro perigo: pequenos dardos envenenados. Poucos percebiam que não brigavam com alguém desarmado até que sofressem pela ação das armas. Alem dessa variedade de armas, levava consigo artigos próprios de ladrões, como chaves especiais, ácidos, corda... Todos os apetrechos necessários para se arrombar uma fortaleza.
            O outro irmão, Miráo, levava consigo uma alabarda, uma lança gigantesca, com provavelmente o dobro do seu tamanho. As alabardas eram bastante incomuns em soldados de infantaria, principalmente se esse soldado fosse um ladrão fugitivo da justiça. Mas Miráo a portava com facilidade e sem esforços. As alabardas são lanças com um fio equivalente a um quarto da arma. Esse um quarto era parecido com o formato dos sabres, longo, fino e mortalmente afiado. Em uma luta corpo a corpo era ineficaz. Mas como sempre, os gêmeos eram exceções.
            - Mas e então acha que aquele urso velho quer conosco? – Perguntou Miráo, agora com seriedade no rosto, enquanto levava um copo de cerveja até a garganta.
            – Não sei mano, não sei mesmo. Isso é o que mais me preocupa – respondeu o irmão, a face tomada de surpresa, como se não tivesse pretendido admitir que não fazia idéia do que o antigo mentor poderia estar tramando.
            Miráo imobilizou-se no mesmo instante. O copo de cerveja a meio caminho da boca desceu lentamente, enquanto ele encarava o irmão, a surpresa evidente no rosto.
            - Cara... De nós dois você é o que tem cérebro e ta me dizendo que não sabe o que Gazhol pode estar tramando? – perguntou a incredulidade estampando-lhe a cara. Mesmo com palavras despreocupadas, ocultavam-se surpresa, e até um leve receio em sua mente.
            Tescher levantou as mãos, em um sinal claro de impotência. Claro que tivera inúmeras idéias sobre o que Gazhol poderia estar fazendo, mas nenhuma que fizesse coerência. Cada teoria era mais louca e impossível do que a ultima. Lembrava-se claramente do dia que recebera a carta do antigo mestre. Aquele dia, afinal, mudaria sua vida.
            Era um dia como qualquer outro nas montanhas de Esthor. Planaltos médios em relação à altura, as montanhas de Esthor localizavam-se em uma ilha, a vários quilômetros do litoral do reino de Merther. A ilha era escondida de olhares curiosos devido à posição geográfica, que a escondia atrás das montanhas de Escador. Tescher estava deitado na rede aproveitando a brisa suave da manhã aos galhos das gigantescas árvores Acanoan.
            Gigantescas, as árvores Acanoan eram provenientes da ilha de Esthor. Podiam crescer até aproximadamente um quilômetro de altura e dois de largura. Abrigavam em seu interior inúmeras espécies de animais, e outras criaturas bem mais interessantes. Podiam viver durante milênios, inalteradas pelo tempo. Suas folhas, que variavam desde as menores, com aproximadamente apenas alguns milímetros até colossais folhas do tamanho de bois, serviam de cama para os habitantes dessas imensas maravilhas da natureza.
            Enquanto dormia, um farfalhar nas folhas alguns metros acima lhe chamou a atenção. Virando-se para cima avistou uma ave branca com o mesmo tamanho das folhas debatendo-se em meio a um galho retorcido que conseguira prende-lo em sua armadilha mortal.
            Lentamente, Tescher subiu os galhos com a destreza de um macaco, chegando até o curioso animal em questão de segundos. Analisando-o, reparou em algo que não notara quando estava a alguns metros abaixo. A ave tinha em suas garras uma bolsa de couro, que o guerreiro logo identificou como um porta-pergaminho. Instrumentos de couro impermeável, esses aparelhos eram usados por aventureiros e mensageiros em missões quando carregavam mensagens e mapas.
            Analisando a criatura com mais cuidado percebeu também que no porta-pergaminho encontrava-se o símbolo dos Heyan-Shaen, um “H” floreado de prata sobre um fundo negro reluzente. Erguendo as sobrancelhas cortou os galhos que prendiam a ave à sua armadilha. A ave bateu as enormes asas, feliz por recobrar a mobilidade. Tescher achou que o pássaro iria partir em vôo, mas o pássaro simplesmente pousou a alguns metros dali, estendendo a perna onde estava amarrado o porta-pergaminho.
            Surpreso, o famoso ladrão retirou delicadamente o apetrecho das pernas do misterioso animal, abrindo-o com um gesto das mãos. O que caiu em seu colo foi um pergaminho, relativamente pequeno. Enquanto lia, cada vez mais absorto o pedaço de papel, suas sobrancelhas se erguiam e sua concentração se focava inteiramente nas palavras caprichosamente escritas a mão a sua frente...
            - A bela adormecida pode me explicar o que é isso?
            Levantando-se de um salto e chocando a cabeça com algo duro como uma rocha, Tescher cambaleou tentando visualizar quem o havia interrompido. Encontrou seu irmão acariciando o nariz, que Tescher percebeu fora o objeto com o qual se chocara. Miráo chegara de mansinho com a intenção de assustar o irmão, mas acabara recebendo um golpe doloroso no nariz. Fuzilando o irmão com o olhar, fez um gesto interrogativo para o pássaro albino gigantesco a sua frente e para o pedaço de pergaminho nas mãos do irmão.
            - Faça suas malas mano. Temos que voltar – o irmão dissera, enrolando o pergaminho e guardando-o dentro do compartimento de couro.
            O pássaro os seguiu até uma das reentrâncias da árvore com tamanho suficiente para abrigar uma estalagem. Aqueles cantos existiam em toda a extensão da curiosa árvore. Buracos, cavados por centenas de anos de vermes e animais, outros, vincos naturais da planta, proporcionavam o abrigo ideal para dois famosos ladrões.
            Lá, Tescher estendeu o papel sobre a mesa enquanto o irmão lia as sobrancelhas subindo à medida que os olhos varriam o pergaminho amarelado pelo tempo.
            Meia hora depois, ambos estavam descendo as gigantescas árvores, guiados pela fenomenal ave. A ave aparecia durante o dia como uma sombra no chão e durante a noite como um fantasma branco-alva.
            Haviam seguido-a por vários quilômetros, saindo da proteção de sua ilha e percorrendo diversos campos de batalha. Durante as guerras o pássaro os guiava através de passagens ocultas a ambos os lados dos exércitos, escondendo-os de qualquer perigo eminente. Analisando as atitudes do animal, Tescher duvidava que ele pudesse representar qualquer perigo para ambos os irmãos.
             Ao aproximar-se das fronteiras com a capital Anarim, a gigantesca ave fez um movimento de leve com a cabeça em direção aos dois cavando o chão com as garras, de um prata-escuro reluzente. Os dois trocaram olhares intrigados.
            O animal continuou repetindo os gestos, ilustrando-os com gestos de cabeça, nos quais ele apontava primeiro para ele mesmo, depois para os a cidade, voltava-se para os irmãos, indicando-lhes o chão que escavava e depois os dois. Interpretando corretamente os movimentos, os gêmeos sentaram-se lentamente, olhando para o pássaro, a duvida evidente no olhar.
            Ele fez novo gesto positivo antes de se virar para as luzes da cidade. Abriu suas asas majestosamente e alçou voou, causando um contraste incrível contra o céu do anoitecer e com as luzes da cidade.
            Ambos os irmãos se acolheram próximos a uma árvore, recostando-se confortavelmente enquanto armavam um acampamento improvisado. Não conversaram sobre coisas banais, nem comeram o sortimento de carne que trouxeram das Árvores. Simplesmente sentaram-se, confortando-se com o calor do fogo que apagava lentamente enquanto os ventos do oeste sopravam incessantemente sobre os dois filhos das estepes.
            Pela manhã haviam sido acordados por uma rajada súbita de vento. Levantando-se de um salto, ambos pegaram em armas olhando intrigados para o local de onde o vento havia surgido. A sua frente encontrava-se um pergaminho, cuidadosamente dobrado, onde estava escrito seu próximo destino.
Espero pelos dois no salão da ordem, as cinco e meia”
            E agora ambos se encontravam lá.
            Um rangido na porta chamou Tescher de volta à realidade. Virando-se, viu um rapaz parado na soleira da porta, olhando embasbacado, a cena à sua frente.
            - Mas por demônios o que houve aqui?