domingo, 26 de dezembro de 2010

Guerras da Imperfeição - Capitulo 2 - Os Gemêos Denatan


Por O Trovador



Capitulo 2: Os Gêmeos Denatan

            – Cara tem certeza que quer fazer isso?
            – Desgraçados vão pro inferno, os dois! – tentou ameaçar Estír, sargento do forte dos Heyan-Shaen. Havia um punho de aço amassando-lhe a garganta coisa que dificultava a saída de palavras.       
            – Ele quer que a gente vá pro inferno Miráo! Olha essa é nova. Já tava de saco cheio de você ficar com os créditos de machão! – Disse um homem no canto da taberna. Era alto e magro, com cabelos cinza-ralos completamente despenteados que se espalhavam para todos os lados de seu rosto. Usava uma roupa normal de camponês, exceto pelas mãos, que vestiam longas manoplas nas mãos, ambas extremamente singulares e letais ao olhar. Ele anotava alguma coisa em um pequeno bloco de papel apoiado nas pernas cruzadas a sua frente com um sorriso de satisfação.
            – Ha! Pelo visto te ultrapassei agora mano – Continuou o homem. Abriu um sorriso largo e zombeteiro, prosseguindo. – 780 contra 781. É cara, pagando!
            – A qualé vo ter que te pagar 600 contos só por causa desse merdinha? – disse ilustrando a frase dando uma sacudidela no guarda aturdido.
            – As regras são essas mano. Ele nos insultou então um ponto pra cada. Você nos mandou pro inferno né? Quero dizer, nós dois? – disse dirigindo-se ao guarda com um olhar de verdadeira duvida, a face coberta com uma verdadeira inocência, beirando o infantil.
             – S.. sim... – tentou dizer, o rosto assumindo um tom perigosamente próximo do púrpuro. Naquela altura, só queria ficar vivo.
            O sargento não podia acreditar na má sorte. Tinha sido chamado para identificar a razão da demora de seus subalternos naquela área. Eles haviam sido convocados a uma reunião no quarto do sargento para determinarem táticas de batalha e outros assuntos que não necessitavam da presença dos lideres Ken-Shyhan, mas que eram fundamentais para a proteção de determinadas áreas sob o controle humano. Quando sua paciência chegara ao limite, descera para buscá-los, aproveitando a opinião para puni-los por fazerem-no esperar.
            Quando chegara ao salão de espera, uma mistura de bar e ante-sala do castelo encontrara seus quatro subordinados inconscientes no chão, algumas cadeiras caídas e dois homens tendo uma discussão acalorada, sobre quem recebera mais insultos, e, o que era mais estranho, ambos se esforçavam para deixar claro que estes tinham recebido o maior numero de ofensas. Ao avistarem o homem parado a porta, com a boca escancarada de espanto não se deterão por mais do que tempo suficiente para avaliar sua posição, antes de continuarem com a acalorada discussão.
            Mas Estír não aceitaria uma desfeita desse calibre. Puxou sua maça-estrela pelo cabo e estava pronto para atirá-la contra os inimigos, quando o mais alto deles, um homem de cabelos brancos curtos e espetados pulou por sobre ele atirando-o no chão. Tinha uma pele bronzeada do sol, coisa que o identificou como um soldado das estepes. Os músculos tonificados que saltavam de cada canto de seu corpo davam-no uma aparência selvagem, quase animalesca.
            O homem, cujo nome aparentava ser Miráo, manteve-o no chão sem esforço, enquanto continuava a discussão com o irmão. Quando Estír tentou inutiliza-lo com a maça estrela, Miráo a segurou com visível desprezo e simplesmente a entortou nas mãos, arremessando-a logo em seguida.
            - Bem cara você ouviu – continuou o homem no canto, alegre como uma criança. – Pagando! – continuou, a mão estendida e um sorriso zombeteiro no rosto.
            - Olha o que você fez merdinha! – Disse Miráo, sacudindo-o. – Por sua causa vou perder 600 moedas de prata! Satisfeito?
            Mas o homem já desfalecia sobre seus braços, inconsciente.
            - São esses os soldados dos Heyan-Shaen? – perguntou para o vento, sacudindo o que restara do homem com o braço. – Vou ter uma conversa com Gaz sobre isso.
            - Sabe, talvez o fato de você ter quase interrompido a circulação de ar na cabeça dele com esse aperto gentil tenha influenciado em algo.
            Miráo grunhiu uma resposta ininteligível. Soltou o corpo desacordado, encaminhando-se para a mesa onde estava seu irmão. Olhou para o caderno que anotava a pontuação dos dois por alto e soltou um suspiro de insatisfação. Realmente seu irmão estava com 781 pontos. Levou a mão a um dos bolsos do casaco, relutante e tirou o saco de moedas de prata, largando-o na mesa a sua frente.
            - Ah bem melhor assim – Disse com satisfação Tescher, arrebanhando o saco para dentro do seu casaco.
            Miráo continuou a encará-lo, o aborrecimento claro em sua face.
            - O dobro ou nada – disparou.
            Tescher o encarou, a incredulidade tomando conta de seu rosto. Logo depois foi substituída por uma expressão de contentamento e felicidade, beirando ao júbilo.
            - Se você cuida-se dos negócios do reino já teríamos mais dividas do que demônios. Feito! – disse estendendo a mão, satisfeito com o negócio.
            Os dois apertaram as mãos se entreolhando, a diversão visível nos rostos dos dois. Os gêmeos Denatan eram inseparáveis.
            Embora em todo o reino se ouvissem historias a seu respeito, poucos eram os privilegiados a ver os lendários bandidos Denatan. Dois guerreiros que fugiram em meio ao último ano de treinamento dos Ken-Dorei, os gêmeos marcaram seu lugar no corredor da história ao conseguirem invadir os aposentos reais de Nereole e levar consigo treze arcas de ouro dos cofres da corte, sem necessitar matar um único guarda.
            Não se ouve, desde então, nada a respeito dos dois lendários ladrões. Ficaram à surdina, nas sombras da historia não estando presentes durante a invasão dos demônios nem durante a unificação da humanidade contra o novo inimigo ameaçador.
            Agora, ambos se encontravam em um amplo salão a alguns metros dos melhores guerreiros que o reino poderia oferecer, bebendo cerveja e revivendo antigas travessuras e aventuras.
            Vendo ambos assim, lado a lado conversando era impossível não reparar na semelhança. Ambos altos, com cabelos cinza desgrenhados e olhos de um negrume total, mãos fortes e músculos salientes saiam das roupas simples de lavradores, artigos provavelmente roubados de pobres fazendeiros desavisados.
            E os dois portando armas igualmente ameaçadoras. O menor, de nome Tescher, levava duas manoplas, luvas de metal. Gigantescas, as duas manoplas eram completamente diferentes. A da mão direita era negra, lisa e reluzente. A da esquerda era de prata, áspera ao olhar e ao toque com entalhes em ouro. Das duas saiam pequenas farpas em forma de ganchos, próprias para perfurar a carne de oponentes desavisados. Era um segredo bem mantido por Tescher, mas aquelas luvas levavam em seu interior um sortimento de armas maior que o arsenal de uma fortaleza. Bombas, facas, agulhas, venenos... Todas as armas que poderiam ser usadas em uma luta corpo a corpo. Ele gostava de ativar uma lamina de bronze que saia da manopla direita, enquanto a esquerda lançava o verdadeiro perigo: pequenos dardos envenenados. Poucos percebiam que não brigavam com alguém desarmado até que sofressem pela ação das armas. Alem dessa variedade de armas, levava consigo artigos próprios de ladrões, como chaves especiais, ácidos, corda... Todos os apetrechos necessários para se arrombar uma fortaleza.
            O outro irmão, Miráo, levava consigo uma alabarda, uma lança gigantesca, com provavelmente o dobro do seu tamanho. As alabardas eram bastante incomuns em soldados de infantaria, principalmente se esse soldado fosse um ladrão fugitivo da justiça. Mas Miráo a portava com facilidade e sem esforços. As alabardas são lanças com um fio equivalente a um quarto da arma. Esse um quarto era parecido com o formato dos sabres, longo, fino e mortalmente afiado. Em uma luta corpo a corpo era ineficaz. Mas como sempre, os gêmeos eram exceções.
            - Mas e então acha que aquele urso velho quer conosco? – Perguntou Miráo, agora com seriedade no rosto, enquanto levava um copo de cerveja até a garganta.
            – Não sei mano, não sei mesmo. Isso é o que mais me preocupa – respondeu o irmão, a face tomada de surpresa, como se não tivesse pretendido admitir que não fazia idéia do que o antigo mentor poderia estar tramando.
            Miráo imobilizou-se no mesmo instante. O copo de cerveja a meio caminho da boca desceu lentamente, enquanto ele encarava o irmão, a surpresa evidente no rosto.
            - Cara... De nós dois você é o que tem cérebro e ta me dizendo que não sabe o que Gazhol pode estar tramando? – perguntou a incredulidade estampando-lhe a cara. Mesmo com palavras despreocupadas, ocultavam-se surpresa, e até um leve receio em sua mente.
            Tescher levantou as mãos, em um sinal claro de impotência. Claro que tivera inúmeras idéias sobre o que Gazhol poderia estar fazendo, mas nenhuma que fizesse coerência. Cada teoria era mais louca e impossível do que a ultima. Lembrava-se claramente do dia que recebera a carta do antigo mestre. Aquele dia, afinal, mudaria sua vida.
            Era um dia como qualquer outro nas montanhas de Esthor. Planaltos médios em relação à altura, as montanhas de Esthor localizavam-se em uma ilha, a vários quilômetros do litoral do reino de Merther. A ilha era escondida de olhares curiosos devido à posição geográfica, que a escondia atrás das montanhas de Escador. Tescher estava deitado na rede aproveitando a brisa suave da manhã aos galhos das gigantescas árvores Acanoan.
            Gigantescas, as árvores Acanoan eram provenientes da ilha de Esthor. Podiam crescer até aproximadamente um quilômetro de altura e dois de largura. Abrigavam em seu interior inúmeras espécies de animais, e outras criaturas bem mais interessantes. Podiam viver durante milênios, inalteradas pelo tempo. Suas folhas, que variavam desde as menores, com aproximadamente apenas alguns milímetros até colossais folhas do tamanho de bois, serviam de cama para os habitantes dessas imensas maravilhas da natureza.
            Enquanto dormia, um farfalhar nas folhas alguns metros acima lhe chamou a atenção. Virando-se para cima avistou uma ave branca com o mesmo tamanho das folhas debatendo-se em meio a um galho retorcido que conseguira prende-lo em sua armadilha mortal.
            Lentamente, Tescher subiu os galhos com a destreza de um macaco, chegando até o curioso animal em questão de segundos. Analisando-o, reparou em algo que não notara quando estava a alguns metros abaixo. A ave tinha em suas garras uma bolsa de couro, que o guerreiro logo identificou como um porta-pergaminho. Instrumentos de couro impermeável, esses aparelhos eram usados por aventureiros e mensageiros em missões quando carregavam mensagens e mapas.
            Analisando a criatura com mais cuidado percebeu também que no porta-pergaminho encontrava-se o símbolo dos Heyan-Shaen, um “H” floreado de prata sobre um fundo negro reluzente. Erguendo as sobrancelhas cortou os galhos que prendiam a ave à sua armadilha. A ave bateu as enormes asas, feliz por recobrar a mobilidade. Tescher achou que o pássaro iria partir em vôo, mas o pássaro simplesmente pousou a alguns metros dali, estendendo a perna onde estava amarrado o porta-pergaminho.
            Surpreso, o famoso ladrão retirou delicadamente o apetrecho das pernas do misterioso animal, abrindo-o com um gesto das mãos. O que caiu em seu colo foi um pergaminho, relativamente pequeno. Enquanto lia, cada vez mais absorto o pedaço de papel, suas sobrancelhas se erguiam e sua concentração se focava inteiramente nas palavras caprichosamente escritas a mão a sua frente...
            - A bela adormecida pode me explicar o que é isso?
            Levantando-se de um salto e chocando a cabeça com algo duro como uma rocha, Tescher cambaleou tentando visualizar quem o havia interrompido. Encontrou seu irmão acariciando o nariz, que Tescher percebeu fora o objeto com o qual se chocara. Miráo chegara de mansinho com a intenção de assustar o irmão, mas acabara recebendo um golpe doloroso no nariz. Fuzilando o irmão com o olhar, fez um gesto interrogativo para o pássaro albino gigantesco a sua frente e para o pedaço de pergaminho nas mãos do irmão.
            - Faça suas malas mano. Temos que voltar – o irmão dissera, enrolando o pergaminho e guardando-o dentro do compartimento de couro.
            O pássaro os seguiu até uma das reentrâncias da árvore com tamanho suficiente para abrigar uma estalagem. Aqueles cantos existiam em toda a extensão da curiosa árvore. Buracos, cavados por centenas de anos de vermes e animais, outros, vincos naturais da planta, proporcionavam o abrigo ideal para dois famosos ladrões.
            Lá, Tescher estendeu o papel sobre a mesa enquanto o irmão lia as sobrancelhas subindo à medida que os olhos varriam o pergaminho amarelado pelo tempo.
            Meia hora depois, ambos estavam descendo as gigantescas árvores, guiados pela fenomenal ave. A ave aparecia durante o dia como uma sombra no chão e durante a noite como um fantasma branco-alva.
            Haviam seguido-a por vários quilômetros, saindo da proteção de sua ilha e percorrendo diversos campos de batalha. Durante as guerras o pássaro os guiava através de passagens ocultas a ambos os lados dos exércitos, escondendo-os de qualquer perigo eminente. Analisando as atitudes do animal, Tescher duvidava que ele pudesse representar qualquer perigo para ambos os irmãos.
             Ao aproximar-se das fronteiras com a capital Anarim, a gigantesca ave fez um movimento de leve com a cabeça em direção aos dois cavando o chão com as garras, de um prata-escuro reluzente. Os dois trocaram olhares intrigados.
            O animal continuou repetindo os gestos, ilustrando-os com gestos de cabeça, nos quais ele apontava primeiro para ele mesmo, depois para os a cidade, voltava-se para os irmãos, indicando-lhes o chão que escavava e depois os dois. Interpretando corretamente os movimentos, os gêmeos sentaram-se lentamente, olhando para o pássaro, a duvida evidente no olhar.
            Ele fez novo gesto positivo antes de se virar para as luzes da cidade. Abriu suas asas majestosamente e alçou voou, causando um contraste incrível contra o céu do anoitecer e com as luzes da cidade.
            Ambos os irmãos se acolheram próximos a uma árvore, recostando-se confortavelmente enquanto armavam um acampamento improvisado. Não conversaram sobre coisas banais, nem comeram o sortimento de carne que trouxeram das Árvores. Simplesmente sentaram-se, confortando-se com o calor do fogo que apagava lentamente enquanto os ventos do oeste sopravam incessantemente sobre os dois filhos das estepes.
            Pela manhã haviam sido acordados por uma rajada súbita de vento. Levantando-se de um salto, ambos pegaram em armas olhando intrigados para o local de onde o vento havia surgido. A sua frente encontrava-se um pergaminho, cuidadosamente dobrado, onde estava escrito seu próximo destino.
Espero pelos dois no salão da ordem, as cinco e meia”
            E agora ambos se encontravam lá.
            Um rangido na porta chamou Tescher de volta à realidade. Virando-se, viu um rapaz parado na soleira da porta, olhando embasbacado, a cena à sua frente.
            - Mas por demônios o que houve aqui?

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