terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pasomia - Capitulo 1 - Quase Cinco


              
Por Bia Sampaio
               


                  
                

                    - Vamos entrar no carro, por favor? Eu vim direto do aeroporto para cá, e não agüento mais ser analisada como objeto de museu por essas patricinhas.                
                  Julia deu uma risadinha:
                
- Elas são minhas amigas e gostam de novidade. Encare o fato, Carolina. Não é todo dia que transformam Courtney Love em Lady Di. 
                
- Concordo. – disse Tom ajeitando os óculos.
                
Carol revirou os olhos e acenou para as garotas, como uma princesa faria.
                
- Agora que já cumpri minhas obrigações reais, podemos ir andando? O cocheiro está a nossa espera.

O último dia do ano letivo chegara ao fim. Agora, enquanto a ex-aluna Carolina, procuravam por sua irmã na saída do colégio, todos os recém formandos gritavam de alívio, atirando suas gravatas azuis do uniforme o mais alto que podiam.           
                   Ela bem que queria sentir saudades da escola e dos amigos. Bem que Carol gostaria de sentir medo pelos exames finais que a admitiriam nas melhores universidades do país. Mas ela não sentia nada disso. Talvez porque nunca tenha gostado da escola bilíngüe e tradicional em que estudara. Ou porque seus colegas nunca tenham sido lá grandes amigos. 
           
                   Claro que também havia o fato ter sido mandada para Mônaco, viver um ano com sua tia milionária, para aprender como uma moça de boa família deveria se comportar antes de tentar admissão nas melhores universidades da Europa.
                     
                   Com certeza Tia Nenê sorriria de orelha a orelha ao ver sua sobrinha usando aquelas roupas classudas com o cabelo reluzente, ainda mais dourado pelo sol. E pelos reflexos feitos no salão de beleza, sure.
                   
No entanto, ninguém poderia odiar mais a imagem da nova Carolina, do que ela própria.
                  
Apesar de se encaixar na qualidade de “bem nascida”, ela não possuía as características de uma moça de elite. Cansada daquele mundinho de posses, Carol resolveu, aos quinze anos, formar uma banda com alguns garotos de um colégio alternativo qualquer. Passou a tocar em bares boêmios e até mesmo em festas do círculo social ao qual pertencia. Vivia uma vida de rock star, com a parte do glamour inclusa. Entretanto, um glamour diferente. Ao contrário de sua irmã mais nova, Julia, que roubava corações em corridas de cavalos e jantares de caridade, Carol fazia a cena em lugares como festas casuais e bares da Rua Augusta.
                   Não era de se esperar que sua aparência também passasse longe do padrão de suas colegas. Cabelos bagunçados que viviam fugindo dos cabeleireiros, roupas que, mesmo quando eram de alguma marca famosa, tinham um jeito próprio de Carol. As unhas que nunca estavam pintadas (porque o esmalte estraga quando se toca guitarra) e claro, a tatuagem na lombar e a orelha, que ostentava três furos, além de um piercing.
                  
Ou melhor, ostentavam. Pelo menos a tatuagem era eterna.                   Todas as pessoas que passavam pela moça bem arrumada encostada na Mercedez preta olhavam. Todas sabiam que a conheciam de algum lugar, mas como uma pessoa tão elegante poderia passar batido?
                   
A dúvida de tais pessoas não durou muito. Logo, a menina mais bonita do colégio saiu correndo pelo portão de ferro, com os cabelos negros ondulados ao vento e as pernas bronzeadas expostas pela minissaia do uniforme.Ninguém menos do que Julia. 
                   A garota encostada na Mercedez provavelmente era sua irmã mais velha desajustada que acabara de voltar da reabilitação social na Europa.
                  
Quanto a Julia, ela nada mais era do que a irmã perfeita de Carol. A garota mais bonita, inteligente e elegante que qualquer elite de qualquer lugar do mundo já vira. Qualquer uma teria raiva só de ser irmã de tamanha perfeição. Mas Carol não tinha. Na verdade, ela sentia pena da caçula. Tão careta,  pobrezinha...
                 
Julia pulou em cima da irmã em um abraço turbulento, cheio de saudades. As duas não se viam desde Julho.
                 
- Pequena! Que saudades de você! – suspirou Carol.
                 
- Eu é que digo! Essa cidade é absolutamente insuportável sem você! – a menina se soltou dos braços da irmã e deu uma olhada em seu novo visual. – Pelo menos o seu perfume ainda é o mesmo.
                  
Antes que Carol pudesse concordar com a expressão de Julia e dar um sermão de como sua tia a forçara a se tornar uma réplica mal sucedida de Grace Kelly, um garoto de quatorze anos, alto, mas com o rosto mais infantil que se pode imaginar, interveio.
                 
Seu nome era Tomás. Ele era o caçula dos irmãos Arruda Prado. Inteligente demais, mas ainda não havia chegado ao auge de sua beleza. Seu intelecto era até assustador, de certa forma. Mas Tom, como era chamado, não era exatamente como o clássico Nerd. Havia uma veia esportiva dentro dele. Jogava futebol todas as tardes em algum clube ao qual sua família pertencia. E quando não estava ocupado demais tirando as melhores notas em física ou chutando algumas bolas, estava produzindo seus próprios filmes.           
                  Tomás era um cinéfilo de primeira linha.
                 
- Então você voltou? – disse o garoto abraçando a irmã de uma forma bem menos calorosa do que fizera Julia. Ele era assim, difícil com sentimentos. Não era frieza. Talvez fosse só a típica timidez de um rapaz de quatorze anos.
                 
- Por enquanto. Eu consegui escapar por um tempo, mas a tia Nenê não me deixará livre. Ela sabe que se eu ficar em São Paulo sozinha, nem que seja por três dias, todo o seu plano de me transformar em uma bonequinha de luxo vai por água abaixo.
                 
Os dois irmãos continuavam analisando Carol. Transformar a garota mais desencanada da cidade em uma princesa moderna era simplesmente inconcebível. E, ao que parecia, era mais que isso. A mais velhas dos Arruda Prado estava de pé em cima de um par de saltos franceses segurando com toda delicadeza uma bolsa que possivelmente valia alguns salários da classe média.
                 
Aqueles olhares e aquelas roupas irritavam Carol.

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