domingo, 26 de dezembro de 2010

Guerras da Imperfeção - Capitulo 1 - A Guerreira e A Fera

Por O Trovador





Capitulo 1: A General e A Fera

            “Espero que ela saiba o que esta fazendo” pensou Heret. Olhava a capitã, o rosto mesclado de admiração e duvida. Não gostava daquela idéia e já expressara sua opinião para a general. Mesmo assim era difícil sair vitorioso em uma discussão com Zora.
            Em meio à lua cheia a Ken-Shyhan parecia um maravilhoso anjo, um deleite para os olhos, algo que superava o maravilhoso e alcançava um alto patamar no coração dos homens que já viram tanta dor e tanta tristeza como Heret. A Ken-Shyhan, observava imóvel e atenta à curva na passagem, esperando, vigiando, aguardando o momento em que o inimigo se mostraria. Nela se mostravam toda a prudência e a experiência de uma guerreira veterana. Uma sobrevivente.
             Enquanto aguardava o momento de combate, mesmo em meio à tensão e a duvida de não se saber se veria o amanha, não pode deixar de admirar a beleza de sua superior. Era uma mulher na flor da idade, com longos cabelos negros que, mesmo cortados no estilo da ordem, davam-na uma aparência selvagem que deslumbrava o olhar. Esse mesmo ar servia para manter as mãos mal intencionadas longe de seu corpo. Os olhos, negros como a noite, hipnotizavam os homens mais fracos e surpreendiam os demônios. Estes, por sua vez, tornavam irresistível para os homens não pretenderem nada com relação a ela. Mesmo não podendo era impossível para qualquer Ken-Dorei evitar admirá-la.
            Vestia uma roupa clássica dos Ken-Shyhan. Uma longa túnica branca, feita de arcenio cantunio, um material somente encontrado nos armamentos demoníacos. Pegavam-se os metais encontrados nos instrumentos demoníacos, e, utilizando técnicas secretas dos metalúrgicos da ordem, o tornava extremamente leve e flexível. Esse tecido se ajustava no corpo, impedindo a penetração de flechas e outros projéteis menores. Era incrivelmente útil e confortável, permitindo que se pudesse aquentar uma grande tempestade sem grandes complicações. Sem grandes adornos, era uma armadura, não um vestido. Calçava botas perfeitas para corridas, um peitoril de aço, ombreiras e uma malha de aço que descia até a barriga, para não dificultar os movimentos. Uma máscara de aço cobria as laterais do rosto, protegendo-a de golpes contra a lateral da cabeça.
            As vestimentas dos Ken-Dorei eram incrivelmente úteis, pois permitiam que os membros pudessem se mover livremente sem dificuldades. Os metais dos quais as armaduras eram formadas eram temperados com outros metais, adicionando características a estes e os tornado mais flexíveis durante a solda. Esse processo era demorado, exigindo muito dos metalúrgicos. 
            Heret por sua vez vestia uma roupa de batalha completa. Armadura mais complementar cobria seu corpo permitindo uma defesa mais abrangente. Tinha força física abastada para mover as juntas e queria ver a criança que o aguardava em casa crescer. Amava sua mulher e seu filho, e não morreria em batalham, sem garantir que os entes queridos estivessem seguros. Seu desejo era o de estar com sua amada no derradeiro momento, com seu filho já casado e feliz, com uma boa herança para si. Era por isso que lutava. Para garantir para sua família um futuro feliz e assegurado. Morreria por essa causa com satisfação, mas preferia estar mais tempo com aqueles que amava.
            Ele e Zora havia muito tempo trabalhavam bem juntos. A conhecera durante uma de suas campanhas em Estregant, um labirinto de pântanos e árvores gigantescas em que ele e uma força enviada pelo rei lutaram lado a lado com o grupo de soldados Ken-Dorei que existiam no local contra uma força sete vezes maior. O que os salvou naquela situação fora o conhecimento da área que Zora possuía e da capacidade de liderança de seu general, Feril, que conseguira com que a vantagem proporcionada por Zora fosse usada de maneira a equiparar os números. Fora uma vitória apertada, mas com mais de uma oportunidade para que Zora mostrasse a quão valorosa guerreira era.    
            Ele, Heret, vivenciara os piores massacres da humanidade, vira companheiros serem mortos e outros tantos se acovardarem. Mesmo tendo também visto a incrível general que sua amiga era, não podia deixar de se preocupar com ela. Sabia que era uma guerreira terrível e tempestuosa, mas ninguém era imortal. Isso aprendera da pior maneira possível. Assim como seus colegas da ordem.
            Enquanto refletia sobre Zora, viu com o rabo do olho um movimento na curva, onde aguardavam o aparecimento inimigo. Segurou instintivamente o cabo da arma, uma espada dentada, enquanto seus sentidos apurados de batalha mandavam informações incessantemente. Agora que prestava atenção ouvia os sons das patas dos Greihan no chão, fazendo estremecer os arbustos secos e retorcidos sobre os quais escondiam-se. Sentia mais do que ouvia o som de armas chacoalhando dentro de caminhões gigantescos.
            E, acima de tudo, revivia aquela mesma sensação que sentia toda vez que os demônios se aproximavam. Uma mistura de medo e desespero, mais primitiva do que racional. Todos os soldados batalhavam contra esse medo, a cada momento de suas vidas, procurando impedir que isso atrapalhasse seu desempenho durante as lutas.
            E então eles apareceram. Vindos direto dos pesadelos que povoam as mentes infantis das crianças humanas, os demônios eram a personificação do medo e dos temores viventes na mente mortal. Eram gigantescos, todos com cerca de dois metros de altura, os olhos, órbitas ocas, que refletiam o vermelho do sangue e do fogo do inferno. O corpo era uma grande carapaça de placas negras, metal natural provavelmente proveniente D’o Abismo. Eram maquinas de guerra e morte, sendo os arautos do Ceifeiro. Portavam espadas gigantescas, que lhes proporcionavam uma vantagem contra qualquer ataque de cavalaria, e contra qualquer coragem humana. Organizados e calculistas, os demônios seguiam em posição de escolta, posição que funcionava como uma ponta de flecha, tendo a cabeça afunilando-se e a traseira perpendicular às paredes rochosas da passagem.
            Próximos ao centro da caravana, encontravam-se os carros de carga, grandes carroças moldadas com ferro e ossos, onde estavam armas e munições de todos os tipos. Um dos carros em particular era protegido por quatro Greihans, animais extremamente gordos, os Greihans eram cinzentos e fortes, funcionando como montaria para alguns dos demônios mais experientes. Quando incitados por seus cavaleiros, podiam cruzar grandes distancias em pouco tempo. O carro e particular chacoalhava e de dentro podia-se ouvir os urros de frustração de algo gigantesco.
            Não fora nenhuma novidade para Heret ver sua general abrir um leve sorriso ao olhar para as forças inimigas. Claro que ela tinha noção do perigo que enfrentava, mas não se importava com isso. Queria deixar claro sua posição na ordem para todos que quisessem contrariá-la. Mas, mais do que tudo isso ela queria provar para si mesma que era uma guerreira. Queria a todo custo se por a prova, se testar.
            Foi tirando lentamente e sem o menor ruído a enorme lança de trás das costas. Quando o pensamento ordenava, a lança revelava cordas de metal que saiam do interior do cabo da arma, ligando estes às pontas de prata celestial para que funcionasse como um chicote. As pontas de aço que feriam os demônios varriam-nos com uma dor insuportável.
            Quando o comboio parou para a patrulha de frente, um componente de cinco demônios menores e mais preparados saia a uns cem metros a procura de grupos como o de Zora, evitando ataques surpresa. Essas patrulhas ocorriam a cada hora de avanço, percorrendo todo o perímetro do comboio. Era nessa hora que atacariam. E era nessa hora, mais uma vez a general se poria a prova.
            Virando o rosto para os demônios, uma chama acendeu dentro do coração de Zora. Uma fúria que ficara no âmago de seu ser a muito tempo. Estava ali. Lutaria. Venceria. Por-se-ia a prova, mais uma vez. Era simplesmente mais um dia de trabalho. Nada mais, nada menos. E então começou.
            Os paredões de Afamandur eram extremamente propensos a um ataque direto de uma força eficiente. As montanhas escarpadas e os penhascos que decoravam a volta desta passagem proporcionavam aos melhores soldados vantagem contra um numero superior. Estratégias de combate pouco importavam naquele lugar. O lugar era pequeno e apertado para uma manobra surpresa e efetiva, que pudesse causar qualquer dano significativo.
            Ali se vencia o melhor. E o melhor, essa noite, era Zora.
            Ela correu em direção a frente do comboio, decapitando as sentinelas que ainda se encontravam paradas de surpresa. As que se recuperaram primeiro puderam aproveitar mais alguns segundos de vida, antes de sofrerem o mesmo destino de seus irmãos. Quando chegou a frente do comboio, porem, sua lança deu uma sacudidela e as pontas de prata penderam para os lados, proporcionando uma espécie de chicote de metal em suas mãos.
            Lançou então a ponta em uma área acima do comboio, em um ponto praticamente intransponível de tão íngreme. Então, sem um único gesto, as correntes puxaram Zora para cima, lançando com força e velocidade diretamente no centro da força de transporte, logo acima da área onde se encontravam os arqueiros. Estes não tiveram uma reação rápida o suficiente. Suas flechas nunca chegaram ao arco antes de suas cabeças encontrarem o chão.
            “Exibida” pensou Heret, ao ver os movimentos incríveis de sua amiga. Ela deixara claro que preferia fazer isso sozinha.
            O choque das ações da general impressionariam e assustariam qualquer um, mas a mesma impressão marcante não se aplicava aos demônios. Eles se recuperavam do susto inicial e entravam em formação para atacar. Zora também devia ter previsto isso pensou Heret. Era uma tática que eles raramente mudavam. Quando em espaço aberto usavam a cavalaria como um murro de ferro contra a parte do exercito a que fora designada a atacar, evitando assim que o primeiro ataque fosse realizado com sucesso. Depois se espalhavam abrindo caminho em meio às linhas inimigas até que estes fossem dizimados. Enquanto isso as linhas de frente chamavam os arqueiros que aproveitavam à situação e disparavam dezenas de chuvas de flechas contra a parte que estava intacta do exercito. Se dispusessem, em meio a essa confusão os Mazel´s, generais das fileiras demoníacas, avançavam pelo ar montados em lagartos alados gigantescos, que sobrevoavam a arena e atacavam outra área do exercito que não sofrera dano com labaredas colossais de chama verde.
            Mas quando em espaço pequeno, enfrentando uma força equivalente ou menor de oponentes, se agrupavam lutando como indivíduos contra cada oponente. A força e eficiência dos demônios era a comunicação por vontade do superior. Quando separados cada um pensava a sua maneira usando tudo para derrotar o inimigo. Atacavam com o que estivesse à frente, e, na falta de armas, as presas, garras e dezenas de músculos serviam para impedir o avanço de qualquer oponente. Era com isso que Zora contava. Um ataque desordenado por parte dos monstros usando isso como arma contra a própria força demoníaca.
            Inicialmente tudo saiu como planejado por Zora. Os demônios, agindo individualmente e desgovernados atacaram-na todos de uma vez, criando assim uma complicação e tumulto entre o grupo. Eram ruídos de metais contra metais, e aço contra coro, quando cerca de cento e cinqüenta laminas se ergueram. Os Greihan causavam tumulto em meio aos soldados, chegando a esmagar alguns antes de estes chegarem a dez metros de Zora. Esta aproveitou a distração e usou um dos arcos que trouxera consigo para engolfá-los em sua chuva de dor. Mais quinze caíram antes de avançarem mais cinco passos. Quando finalmente perceberam a necessidade de escudos já haviam caído vinte do pelotão original.
            A precisão e velocidade de Zora eram impressionantes. Seus braços eram simples borrões, tamanha a velocidade. As flechas eram como respingos de chuva, nos quais só se viam quando em contraste com algumas das montanhas escarpadas dos dois lados da passagem. A chuva só cessava por alguns segundos, tempo suficiente para Zora recarregar a aljava com algumas das flechas dos derrotados arqueiros. Mesmo com escudos em riste, algumas das flechas perfuravam-nos e se alojavam nos braços e barrigas dos demônios. Esta seqüência custou mais vinte soldados. Quando a alcançaram, eram cem, dos cento e cinqüenta que formavam a equipe original.
            Mas foi quando os demônios partiram para o ataque frontal em si que as coisas fugiram ao seu controle. Durante o avanço, uma fila se abriu em meio ao mar de demônios permitindo a visão de uma fera, tão medonha e assustadora que faria o mais corajoso dos homens gritar de medo e pavor. As portas do carro-forte estavam abertas e o animal que elas escondiam encontrava-se sobre a luz do luar.
            Alcançando facilmente o tamanho de uma carroça, uma fera abissal surgiu em meio à multidão de pele negra. Pelos cinzentos e grossos, como folhas de arbustos brotavam de cada canto do seu corpo. Estes eram um emaranhado sem sentido que se enrolavam e retorciam a cada canto. Garras que pareciam feitas de diamantes prateados saiam de patas gigantescas, com o tamanho de escudos. O corpo, uma soma terrível de inúmeros músculos salientes, se movia lentamente, com graça e imperiosidade em direção a general. As orelhas estavam eriçadas, sendo, porem a esquerda portadora de um ferimento medonho. O animal exalava uma aura de poder e força insuperável.
            Quanto mais se aproximava, mais Zora ouvia o som. Um urro, mais antigo e imperioso que animalesco saia da garganta do animal. Mas não era som. Era algo que mexia com sua mente e abalava os seus sentidos. A cada passada estremecia a terra e encurtava o espaço existente entre Zora e si mesma. As garras arranhavam a terra e esmagavam qualquer obstáculo que entrasse em seu caminho. Sangue rubro como vinho pingava de sua face, formando grandes possas do liquido viscoso e gosmento, devido à mistura deste com a saliva da fera. A fome que o monstro devia sentir era imensurável.
            Aqueles olhos, amarelos como gigantescas pedras âmbares lhe lembravam outros tempos. Memórias antigas que jaziam esquecidas em sua mente afloravam agora sem convite, desfilando diante dos seus olhos enquanto o animal continuava o avanço de terror. Uma aldeia a beira das montanhas em chamas. Corpos serviam de alimento para os corvos. Sombras negras avançavam por todos os lados. E em uma das casas uma criança não tinha forças para transformar o horror de ver os pais sendo devorados na sua frente em um grito de socorro. Curiosamente a mesma fera que assombrava esses pesadelos seria a que findaria sua vida.
            Ela estava paralisada. Os olhos amarelados impediam-na de fugir ou raciocinar. Como um pássaro hipnotizado pelo olhar da cobra, Zora se imobilizara sobre o olhar ancestral e ameaçador da fera sobre seus olhos. A lança pendia aos seus lados. Inútil. Fraca. Impotente.
            Enquanto a fera se aproximava, Zora visualizava em sua frente à face da morte. Seus reflexos e concentração jaziam esquecidos, pertencentes à outra era. Agora era simplesmente o pavor. Assumindo de todos os lados. Tomando conta de seu corpo. Condenando-a.

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