Por O Trovador
Introdução: Prólogo do Amanhecer
Introdução: Prólogo do Amanhecer
São tempos de trevas. Tempos negros. Uma nuvem paira no horizonte impedindo a visão do resultado. O sangue corre como água e a dor no coração do povo semeia a terra. Os corpos que restam alimentam os corvos. Enquanto isso a nuvem continua seu avanço. Lenta. Negra. Eterna. O povo se enche de medo. A esperança é uma lembrança vaga e distante, que parece ter existido em eras remotas do passado. Não chove. Os trovões não iluminam o céu. É simplesmente um negrume. Que cresce e aumenta com a morte.
Os remanescentes, aqueles que não desistiram e que continuam a luta contra as garras do desespero, estão morrendo. Seus soldados, embora poderosos, perdem a fé e se desesperam. A vida, que outrora fora bela e rica, agora apodrecia em meio ao sofrimento. E as trevas continuam seu avanço. Eternas. Imutáveis. Aparentemente indestrutíveis.
Alguns acreditam que o sofrimento esteja chegando ao fim. Que o Senhor estenderá Sua mão e cessará o sofrimento. Talvez seja verdade. Talvez seja uma simples e patética mentira. E talvez seja este argumento o único sopro de esperança presente nos corações da humanidade. As mães choram por seus filhos e seus maridos. Os velhos lamentam, se sentem fracos e impotentes. E os homens desesperam-se. A dor é uma companheira presente na existência da humanidade.
As mãos da morte se estendem vagarosas e lentas sobre o mundo, como que para aumentar o suspense, trazer a tona o desespero. Pois, diante do desespero vem a dor. Diante da dor vem o mal. E diante do mal vem àqueles que procuram, sobre a sombra das trevas, o poder com o qual sonhavam e almejavam, usando de todos os meios para adquiri-lo.
Mas, diante do mal muitos mostram o que tem de melhor. Esses são aqueles que oferecem a proteção aos mais fracos, e que em momentos de fraqueza, lideram a humanidade em direção a luz, fugindo das trevas. Vendo a importância de sua força, esses homens se juntaram com a intenção de proteger aqueles que lhes eram queridos. Eles eram a única chama de esperança que alimentavam os corações do povo.
Esses eram aqueles que guiavam o povo, aqueles que decidiam o destino de milhares durante as guerras, e aqueles que sempre levavam a vontade do próximo à frente da sua própria. Esta era uma das razões para a seletividade e a eficiência do grupo. Lá, se encontravam os melhores e mais ferozes soldados. Um membro era equivalente a vinte demônios. Sob a liderança de um deles dez homens valem por cem. Eles eram a única barreira que impedia uma derrota total perante as trevas.
Seu objetivo era simples. Lutar contra as trevas com todas as forças, em todas as formas. Impedir o avanço das sombras da dor e do desespero a qualquer custo. Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen*, Aqueles que Iluminam.
Os Ken-Dorei**, nome dado aos membros da ordem, eram treinados nas mais diversas artes da luta armada, o que fornecia uma ampla rede de conhecimentos sobre as técnicas utilizadas pelos adversários. Os membros da ordem também aprendiam diversas outras ciências, algo que poderia resultar em vitória se utilizada corretamente. A soma de todos esses conhecimentos dava a eles a característica de cavaleiros invencíveis.
A cada membro era dada uma arma, que seria sua companheira nas mais diversas ocasiões. Essa arma era feita solidificando água benta sobre uma fôrma, feita com pele de demônio. A arma era então moldada e por fim recebia três gotas de sangue de seu cavaleiro. A partir daí, arma e guerreiro eram um só. A arma só poderia ser usada por seu senhor, ao tempo que cresceria fisicamente, junto com seu cavaleiro.
Os membros em si trabalhavam na concretização de missões designadas pelos membros do alto escalão da ordem. Essas missões raramente eram triviais e muitas vezes exigiam as melhores habilidades dos Ken-Dorei. Havia uma multa altíssima para quem atrapalhasse os membros, mas isso raramente acontecia. Todos entendiam a necessidade de deter o avanço das trevas.
A ordem dos Heyan-Shaen era dividida em quatro círculos de aprendizado, nos quais eles dividiam as missões por grau de importância a partir do terceiro circulo. Os aprendizes sempre iniciavam seu treinamento no primeiro circulo, onde lhes era ensinadas as técnicas básicas de combate, táticas de guerra e todo o conteúdo que geralmente só era fornecido aos generais que atuavam fora da ordem. Esses recrutas eram avaliados por Ken-Hin durante todo o treinamento. Era também nesse circulo que se recebiam as Heyan-Kihen***, pois era considerado de suma importância que os membros da ordem apreendessem a trabalhar em conjunto com a arma desde o inicio do treinamento.
No segundo circulo, o circulo do polimento, os aprendizes eram designados aos membros mais antigos pelos mestres da ordem onde aperfeiçoavam o treinamento e aprendiam o que era a guerra na pele. Lá também se intensifica a parceria entre membros da ordem, coisa que não ocorria durante o circulo do aprendizado, onde os jovens tinham somente algumas instalações e não podiam interagira com o resto da ordem. Já no segundo circulo os aprendizes interagem com os Ken-Shyhan durante o processo de troca de missões e outras ocasiões formais. Essa relação era importante, pois fortalecia os laços de respeito e fraternidade entre membros, o que às vezes significava a diferença entre vida e morte. Mas alem de tudo isso intensificava a parceria entre aprendiz e arma, à medida que sobre os dois passavam-se horas de treinamento e corpos de demônios. Nesse circulo também se realizam missões de menor importância, como mensageiro, defensor de alguma vila ou eliminar determinada criatura.
O terceiro circulo, o circulo dos Ken-Hin**** cuida das missões de considerável risco para os padrões dos Heyan-Shaen, liderando os exércitos, combatendo demônios mais poderosos, ou sendo designados como conselheiros de alguma parte do reino. Nesse circulo os Ken-Hin procuram o nível máximo de suas habilidades de combate e de sua afinidade com as Heyan-Kihen dando a elas a forma desejada e esta se ajustando as necessidades do cavalheiro.
No quarto circulo se encontravam os Ken-Shyhan*****. Eles eram os responsáveis pelo treinamento dos aprendizes, pelas designações das missões aos Ken-Hin e pela administração durante as guerras. Suas opiniões eram de alta conta em qualquer conselho e tinham carta branca para realizar qualquer ação militar que pretenderem. Eram também os guerreiros de maior força e valor, tendo estes poucos indivíduos, deixado nos exércitos das trevas, as maiores feridas. As lendas contam que quando os Ken-Shyhan eram vistos sob o nascer do sol ou sob a lua cheia, estes assumiam uma forma tão linda e magnífica que humilhavam os anjos.
No momento os Ken-Shyhan eram extremamente solicitados como generais em todas as partes do reino. Suas maestrias em combate e as qualidades únicas que estes possuíam como generais eram vitais em todas as partes. Porem, por mais valorosos que fossem, o numero de inimigos era formidável. A cada demônio que caía mais cinco surgiam para substituir o irmão derrotado. Mas a característica que os tornava guerreiros imbatíveis não era os quase cem quilos de músculos e ossos duros como aço, não eram as laminas negras nem as feras aladas que os acompanhavam. Era o fato de que a vida ou a morte eram detalhes ridículos. A vitória ou derrota e as perdas que isso causava eram insignificantes. O único objetivo dessas criaturas provenientes dos abismos do inferno era a eliminação da raça humana e todas as belezas existentes no mundo.
Mas mesmo com essa ameaça os Ken-Shyhan não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Seus membros não eram imortais e os danos que causavam as linhas inimigas parecia não afeta-las. Talvez a única exceção a isso fosse o antigo general Lexsen. Mas isso fora em uma época distante, em um passado longínquo.
No presente, o reino estava sobre uma equilibrada balança na luta por seu lar. Esquemas de batalha eram programados, guerreiros corriam para afiar suas armas, ferreiros as preparavam e crianças se despediam dos pais. Os demônios não eram simplesmente fortes, mas sim extremamente astutos. Seus estrategistas criavam sistemas elaborados de combate, o que era uma pedra no sapato de todo general. Ambos os estrategistas, dos dois lados da batalha esforçavam-se ao máximo para proporcionar um desafio para seu oponente.
Os grandes estrategistas, obviamente estavam entre os Ken-Dorei. Eram conhecidos pelas brilhantes táticas de combate e pelo fato de poderem controlar grandes exércitos com se controlassem a uma criança nervosa. E entre os grandes mestres táticos dos Ken-Dorei estava Lorde Gazhol.
Grande e forte, Gazhol era conhecido pela grande batalha de Afamandur, uma área montanhosa que dava a volta pelas Planices do Luar. Gazhol liderara um exército de trezentos homens através de passagens secretas conhecidas pelos Ken-Shyhan, contra uma força dez vezes maior de demônios. Conseguira também realizar este feito mantendo a salvo duzentos e cinqüenta homens.
Fora uma vitória esplendida que resultara em mais duas seguidas. As batalhas em Mercalar e a vitória em Asterdon (duas cidades costeiras) foram um grande alivio para os humanos do oeste. Enquanto esperavam por reforços que nunca chegariam, os demônios que travavam batalhas em Mercalar se viram encurralada por duas forças de humanos, e acabou com suas forças em frangalhos, perdendo entre a bigorna dos defensores e o martelo de Gazhol e seus agentes, que conseguiram vencer os cinco mil demônios sem nenhuma perda. Enquanto isso, em Asterdon, uma cidade na época tomada por demônios à situação pendia para a balança humana. As forças demoníacas estavam aguardando pelos armamentos que seriam trazidos pelas caravanas que atravessariam Afamandur. Em conseqüência disso acabaram sem projeteis, e as muralhas tiveram uma grande perda da força defensiva. Os humanos de Irilen, cidade vizinha a Asterdon aproveitaram a situação, e junto com a força de Gazhol (a qual avia recebido novos soldados e suprimentos) marcharam para a vitória em Asterdon.
Essas duas grandes batalhas serviram para deixar uma equilibrada na balança, e aumentando o respeito já grande que possuía Gazhol a Serpente, como fora chamado após a vitória em Afamandur. Agora os olhos do mundo estavam voltados para o grande general humano. Seria ele aquele que traria a paz novamente para a humanidade? Seria este homem, que aqueceria a confiança e faria jus aos Heyan-Shaen? Estaria o destino de milhões de vidas nas decisões de um único homem?
Enquanto estas dúvidas pairavam pelas mentes de praticamente toda a humanidade, Gazhol admirava Hiradrin, a Cidade do Sol, refletindo sobre o estado militar de sua raça.
O maior general da ordem se encontrava sobre a varanda de seu quarto, único móvel verdadeiramente seu. O voto de pobreza dos Ken-Dorei os impedia de terem mais do que alguns pertences próprios e alguns metros sobre os quais se deitarem. Já Gazhol possuía grande estatura, músculos duros como pedra e cicatrizes percorrendo quase cada centímetro de seu corpo. Possuía barba negra desgrenhada e toscamente aparada, como era estilo na ordem. Não havia tempo para se barbear em meio a batalhas, então para que a barba não atrapalhasse na movimentação, os Ken-Dorei a aparam com a faca de caça mirando-se nas águas de algum poço ou cantil. O cabelo seguia no mesmo estilo, mas era farto e dele despontavam alguns fios brancos, indicando estar na casa dos quarenta. Um perfeito milagre para os padrões de sobrevivência da ordem. Seus olhos também eram negros, mas neles se viam refletidos todas as experiências vivenciadas pelo grande general. Mas o que mais surpreendia neles era a vivacidade, a calma, a simplicidade e a generosidade que irradiavam de seus olhos e percorriam todo seu corpo, como um calmante. Era essa aura de paz que caracterizava um Ken-Shyhan.
Todas essas características denunciavam sua alta posição na ordem, e que não chegara ali resolvendo papelada. Outra indicação disso talvez fosse o escudo pendurado nas costas, em forma de uma gigantesca asa de morcego. Diferente de seus companheiros, sua Heyan-Kihen assumira a forma de um gigantesco escudo entalhado a parecer uma asa de dragão do tamanho de Gazhol.
O equipamento, porem era de extrema utilidade. Gazhol poderia ativar as laminas que mantinha escondida dentro da asa enquanto a segurava, provocando grandes ferimentos e danos consideráveis nos oponentes desavisados.
Seu quarto não era muito diferente de seu dono. Bem organizado, limpo e extremamente simples, Gazhol viva em um típico quarto de soldado, nada que se esperaria de um Ken-Shyhan. Uma simples cama de soldado, embora bem feita, ocupava um canto do quarto, tendo ao seu lado uma mesa de cabeceira relativamente pequena. Do outro canto do quarto, de frente para a cama, um armário alto ocupava um pequeno trecho da parede norte. Á direita do quarto se encontrava uma grande porta de vidro com uma varanda na qual refletia Gazhol. Uma mesa rústica e grande ocupava o centro do cômodo, atulhado de papeis a tal nível, que se impressionava a mesa se manter em pé. Era , no todo, um lugar acolhedor.
Muitos não sabiam, mas por baixo de toda aquela aparência selvagem e terrível de um dos maiores sobreviventes, se escondiam uma mente brilhante e um homem gentil. Gazhol entendia de valores e perdas em guerras, mas nunca era frio ou indiferente para com seus soldados, nem cruel em uma batalha. Alem de compreender de guerra, Gazhol entendia mais ainda da dor da perda. Sabia da tristeza que preenchia os corações de seus homens, quando estes pensavam que não voltariam para seus filhos e esposas, fazendo assim sempre o máximo possível para garantir que estes chegassem em casa em segurança. Era tido como herói e ídolo entre seus soldados, sendo respeitado e amado por todos.
No momento, porem Gazhol não estava muito amável. Andava pelo pequeno espaço que lhe pertencia com impaciência, às vezes parando para rever uma anotação da papelada sobre a mesa, ou simplesmente para olhar a cidade abaixo dos seus olhos. Esperava pela chegada de seus antigos pupilos, mas isso não era uma reunião amigável. Tinha planos que poderiam por tudo a perder, e a presença dos gêmeos era essencial. Por um momento, sua memória vagou para outro tempo, um tempo em que podia andar por todo reino em paz, um tempo em que não via dor nos olhos do mundo, um tempo em que o mundo era mais acolhedor.
Parou, talvez pela milésima vez. Ficou sentado, olhando para o vazio, lembranças antigas pairando por sobre sua cabeça. Virou-se, e com um amplo movimento partiu ao meio as portas do seu armário.
Quando se virou, uma lagrima escorria por seu rosto, riscando a sujeira e a fuligem.
*Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen, Aqueles que Iluminam.
*Por isso eram denominados os Heyan-Shaen. Heyn era a palavra usada por Celestiais para denominar o um, ou um individuo, e Shaieyn denominava o ato de iluminar. Então eram os Heyan-Shaen, Aqueles que Iluminam.
** (Kein significa recado e Dorei significa esperança, traduzindo-se os mensageiros da esperança)
***(Kihin e a palavra usada pra se referir ao eterno, dando então a definição de Kihen sendo a eterna, referindo-se a união de aprendiz e arma, união que perdura até o momento da morte)
****(Hin é a palavra para a meia esperança, ou em uma tradução mais rústica é a palavra para o “atiçar de algo”, tendo como complemento o Ken, cuja tradução seria “os que aquecem a esperança”)
*****(Shyhan significa o sentimento máximo de segurança, ou em tradução mais rústica, Shyhan significa confiança, tendo como complemento o Ken à tradução seria: aqueles em que se confia)
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